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Gaspar, 24 de julho de 2014

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Morre ex-prefeito de Gaspar Dorval Pamplona

Data: 23/07/2014

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O ex-prefeito de Gaspar, Dorval Rodolfo Pamplona, faleceu aos 92 anos nesta quarta-feira, dia 23, às 10h20, em sua própria residência no bairro Coloninha. O velório será realizado a partir das 17h, na Capela Mortuária Bom Pastor, localizada no bairro Santa Terezinha. O sepultamento ocorrerá nesta quinta-feira, 24, às 10h, no Cemitério Público Municipal do bairro Santa Terezinha.

Dorval Rodolfo Pamplona administrou Gaspar de 1956 a 1961 pela União Democrática Nacional, UDN. A obra de maior destaque neste governo foi a construção da Ponte Hercílio Deeke. Foi decretado pela Prefeitura de Gaspar luto oficial de três dias. 

Em 2012, o Cruzeiro do Vale publicou uma revista especial de aniversário de 22 anos do jornal. Na época, o jornalista Thiago Floriano realizou uma entrevista especial com Dorval Pamplona, onde falou sobre sua trajetória como prefeito de Gaspar e a construção da Ponte Hercílio Deeke.

Confira a reportagem:


 

Todos bem. Graças a Deus.


Dorval Pamplona foi prefeito do município de Gaspar em uma época em que a realidade era muito diferente. O grande anseio da população gasparense era poder atravessar de uma margem à outra do Rio Itajaí-Açú sem precisar passar pelas balsas, que apresentavam riscos na travessia e nem sempre estavam à disposição na hora em que mais se precisava. De madrugada ou na hora que as pessoas precisavam atravessar com urgência para ir ao hospital, o balseiro, chamado de Bananeira, nem sempre podia estar a postos e a travessia era impossível sem uma ponte. 

Hoje, aos 90 anos de idade, o Sr. Dorval relembra ao lado de sua companheira Maria Deichmann Pamplona, 86, como foiimg0636eMD.jpg protagonizar um dos episódios mais importantes da história de sua cidade, a construção da ponte Hercílio Deeke. A obra, que teve seu início decidido em uma única visita do ex-prefeito Pamplona e do então secretário da fazenda Hercílio Deeke ao governador de Santa Catarina, Jorge Lacerda, enquanto este fazia o nó de sua gravata, garante a travessia de milhares de gasparenses todos os dias. Nenhum tema poderia ser mais atual na Gaspar de 2012 do que o trânsito da área urbana da cidade.

A memória de ambos é vívida e clara como as águas do Itajaí-Açú nunca chegaram a ser e os detalhes sobre a obra estão arquivados em um diário, escrito à mão pelo próprio Dorval no tempo em que foi prefeito, entre 1955 e 1960. Dia após dia, ele escrevia: “Todos bem. Graças a Deus”, e seguia relatando os fatos ocorridos em sua vida pública. Este documento, de valor histórico intangível, está armazenado com todo o cuidado junto com fotos da época e outras lembranças de um tempo em que ser prefeito era uma política quase altruísta.

O senhor lembra de onde surgiu a ideia de construir a ponte sobre o Rio Itajaí-Açú?

Dorval Pamplona – Era muita lavoura na margem esquerda. As pessoas queriam atravessar e só tinha uma balsa.

Naquela época já existia muitos carros em Gaspar?
Dorval Pamplona – Não. Tinha um caminhãozinho que carregava no máximo cinco toneladas de cana. Tinha muito carro-de-boi, carroça, mas as pessoas carregavam muitas coisas nas costas mesmo.

Na época a empresa que foi contratada para construir a ponte teve dificuldades e a Prefeitura assumiu a obra. Por que isso ocorreu?
Dorval Pamplona – A empreiteira era uma empresa do Rio de Janeiro. A companhia Cumplido Santiago. Eram portugueses e no meio da construção eles faliram, então a Prefeitura tocou a obra.

Maria Pamplona – Era muita enchente. Quando tava quase pronto vinha a enchente. Em um ano acho que foram cinco enchentes. Estragava a obra e começavam tudo outra vez.

Eram funcionários da Prefeitura mesmo ou foi contratada alguma empreiteira para continuar a obra? A mão de obra era de fora ou daqui mesmo?
Dorval Pamplona – Parte era da Cumplido Santiago. Eles trouxeram muitos portugueses que ficaram para continuar a obra pela Prefeitura. O engenheiro que assumiu a responsabilidade foi o doutor Egon Stein, de Blumenau.

Não existiam máquinas para construção. Foi feito tudo na mão?
Dorval Pamplona – Tudo na mão. Era na mão e quando acabou foi feita uma grande festa.
 

O livro de registros da construção da ponte
 

Nas enchentes de 83 e 84 a ponte sofreu alguns danos, o senhor acompanhou as dificuldades dessa época?
Dorval Pamplona – Foram feitas algumas pequenas reformas, mas coisa pouca. Ela foi construída muito forte, tem muito ferro. Era tudo bem construído, não como hoje.

img0648eMD.jpgNaquela época as construções eram mais fortes?
Dorval Pamplona – É. Essa casa aqui, por exemplo, tem 60 anos e não tem uma rachadura.

Maria Pamplona – Nós temos todos os dados aqui anotados. Data de início da construção: foi em novembro de 57. Comprimento da ponte: 163 metros. Largura: 9 metros. Custo total da ponte: 14500 cruzeiros. Verba estadual: 9 mil. Prefeitura municipal: 5,5 mil. Quer dizer que essa ponte começou em 57 e foi inaugurada em 60, mas em 13 de dezembro de 1959 foi aberta para passagem do povo e iluminada naquela noite. Aí fizeram uma festa com churrasco, mas foi só inaugurada pelas autoridades no ano seguinte.

Dorval Pamplona – Hoje eles inauguram sem estar a obra pronta. Naquele tempo primeiro a obra ficava pronta porque o povo queria saber da qualidade da obra e outras coisas.

O povo agradeceu muito quando terminou a obra? Como foi a reação?
Dorval Pamplona – Ah! Muito.

Maria Pamplona – Tem até uma situação muito engraçada que nem eu sabia. Uns moradores aqui da margem esquerda foram entrevistados quando foi lançada a campanha para fazer a Ponte do Vale. Muita gente disse: “quando a ponte ficou pronta, todo dia nós varríamos a ponte de lá até cá. Era tudo limpinho de vassoura”. As pessoas contaram que elas faziam isso há muito tempo. Imagina só o carinho que elas tinham.

E aquela história do dinheiro? O povo conta que quando acabou a obra sobrou dinheiro e o senhor foi pessoalmente devolver ao governador, essa história é verdadeira?
Dorval Pamplona – O estado ajudou com nove mil e o restante foi da Prefeitura, o total deu 14.500. Sobrou dinheiro, então eu falei com o Hercílio Deeke, que era secretário da Fazenda do Estado, perguntando se a gente podia fazer uma sala lá no grupo escolar Frei Policarpo. Ele disse que sim, mas mesmo assim ainda sobrou dinheiro.

E o senhor foi entregar a sobra para o governador, então?
Dorval Pamplona – Entreguei para o Laércio Ramos Vieira, que era o secretário da Fazenda, um cheque de 110 cruzeiros antigos.

Houve mais alguma história curiosa na época?
Dorval Pamplona – Naquele tempo havia só dois partidos políticos. Então, quando a ponte ficou pronta na cabeceira, queria passar o cidadão que era da UDN e brigou com aquele que era do PSD pra ver quem passava primeiro. Ficou esperando três dias na cabeceira da ponte. A gente tem muita coisa anotada, quem foi o primeiro morto que passou em cima da ponte, o primeiro casamento, tudo, tudo. Tinha um tal de Cristiano Theiss, que queria passar porque queria, o sonho dele era passar a ponte. Passou morto. Morreu e depois tiveram que passar com ele.

Maria Pamplona – Naquela época era bem diferente. Não existia Fórum, não existia juiz de paz. Tudo era decidido na mesa do prefeito. A palavra do prefeito e a palavra do padre eram obedecidas.

E como era ser prefeito?

Dorval Pamplona – Dos cinco anos que fui prefeito, em três anos não existia ordenado. O prefeito não recebia salário para trabalhar. Era cargo de honra. Depois passei a receber, no fim de três anos, sete cruzeiros e cinquenta centavos por mês, que era o salário mínimo. Era honestidade e capricho em todos os sentidos.

 

Artigo relata a vida de Dorval Pamplona
 

Em 2009, o ex-parlamentar Álvaro Correia publicou um artigo sobre a história de vida de Dorval Pamplona no portal de notícias Cruzeiro do Vale. Dois anos mais tarde, o perfil foi publicado no livro “Homens que fizeram a história”, de autoria do próprio Álvaro Correia. Confira abaixo:

“É sempre gratificante para um jornalista ou escritor quando se propõe resgatar o passado de lutas e de glórias de um punhado de homens que um dia sonharam fazer de uma Freguesia ou de um Distrito um município forte, pujante e progressista como é hoje o de Gaspar. É que a história desses homens são verdadeiras lições e exemplos de coragem, de fé, de amor e de sacrifício, qualidades que marcaram suas trajetórias de vida para nos legar uma cidade e um município do qual muito nos orgulhamos. 

Hoje vamos desfilar aqui mais uma interessante biografia de um desses valorosos homens do passado, o qual exerceu o mais alto cargo público do município, o de Prefeito Municipal, deixando dignificantes exemplos de operosidade, honestidade, dedicação e zelo pelo dinheiro público. Estamos falando de Dorval Rodolfo Pamplona, que foi Prefeito Municipal na terceira legislatura, de 1956 a 1961 e que graças a proteção divina ainda hoje vive entre nós embora a avançada idade de 86 anos.

Em pleno gozo de suas faculdades físicas e mentais, Dorval Pamplona, com a simplicidade e franqueza que sempre marcaram a sua personalidade, quando provocado, fala com orgulho sobre a sua administração, destacando as importantes obras realizadas como a ponte Hercílio Deeke que deu nova vida a Gaspar e aos gasparenses.

Dorval nasceu em Gaspar-Mirim, em 08 de março de 1922, filho de Ana Carolina e Rodolfo Vieira Pamplona. Aprendeu as primeiras letras com a professora Aninha Pamplona e com o professor Rodolfo Guinther, tendo concluído o primário no Grupo Honório Miranda. Depois integrou-se nas atividades da família que produzia açúcar, cachaça, melado e farinha. Quando atingiu a maioridade foi trabalhar na Indústria Beneficiadora de Arroz, que funcionava na cidade e da qual seu pai era um dos sócios. Começou como operário comum, mas graças a sua competência e interesse demonstrado pelo serviço logo chegou à gerência da empresa. Com 24 anos casou-se com Maria Deischmann, tendo o casal 4 filhos e uma filha. 

Homem de espírito aberto e afeito às boas causas Dorval, com o prestígio que o cargo de gerente da Beneficiadora lhe dava, foi aos poucos se envolvendo nas diversas atividades sociais, culturais, esportivas e religiosas que ganhavam força na cidade naquela época. Era um novo líder que despontava e que chamava a atenção, principalmente dos partidos políticos que começaram a assediá-lo. Convidado, ingressou na União Democrática Nacional ( UDN ), que seu pai também adotara. Mal dava os primeiros passos na política e eis que se aproxima uma nova eleição para prefeito e a cidade já vivia a turbulência própria de um pleito municipal, onde a rivalidade e a equivalência de forças entre UDN e PSD provocava um clima de "pé de guerra". E a sua surpresa maior foi quando certo dia os líderes da UDN local, tendo a frente o ex-governador Irineu Bornhausen aparecerem na residência de seu pai onde também se encontrava e convocaram Dorval para ser o candidato a prefeito, pois essa era a decisão unânime do diretório. Com o apoio do pai e sem ter como negar, Dorval aceitou o convite para concorrer a prefeito quando tinha apenas 33 anos de idade. A eleição, como todas daquela época, foi disputadíssima, mas Dorval foi o vencedor ganhando por uma diferença de 186 votos do candidato do PSD, Sr. Reinholdo Bornhausen. 

Diplomado e empossado, o jovem prefeito fez o levantamento da estrutura da Prefeitura, ficando surpreso com o que apurou: a municipalidade dispunha apenas de 2 funcionários, um contador e um tesoureiro, uma pequena patrola, 2 caminhões e um jipe, como únicos equipamentos. Isso não assustou nem desanimou o prefeito Dorval que lançou-se a luta com coragem e determinação e aos poucos foi equacionando e resolvendo os problemas mais prementes do município. Teve sorte quando cobrou do governo do Estado a construção da ponte sobre o Rio Itajaí Açú, que o Governador Jorge Lacerda prometera construir durante um comício em Gaspar, se ele e Dorval saíssem vencedores da eleição.

Jorge Lacerda confirmou a promessa e autorizou o Secretário da Fazenda Hercílio Deeke a repassar a Prefeitura, em parcelas mensais, CR$ 9.500,00, já que cabia a Prefeitura integralizar os CR$ 14.500,00 que era o custo total da ponte, entrando com R$ 5.000,00. A ponte que mede 163 metros de comprimento por 9 de largura, teve as obras iniciadas em novembro de 1957 e foi inaugurada em junho de 1960. Na festa de inauguração foi muito lamentada a ausência do Governador Jorge Lacerda que falecera dois anos antes num desastre aviatório. A execução das obras foi em grande parte administrada pela Prefeitura, pois a empresa contratada, a CIA Santiago, faliu e rescindiu o contrato no meio do caminho. 

Nunca é demais ressaltar a importância dessa ponte para a vida de Gaspar, pois foi um marco que uniu os gasparenses nas suas diversas atividades e proporcionou um novo surto de progresso e desenvolvimento na margem esquerda. Além da ponte, outra obra de vulto feita pelo governo do Estado graças ao emprenho do prefeito Dorval foi a implantação do asfalto na rodovia que liga Gaspar a Blumenau. Quanto a administração do município, Dorval contabiliza uma série de obras realizadas durante o seu governo, como a implantação de escolas em Belchior, Águas Negras, Arraial Alto, Óleo Grande e Gaspar-Mirim, entre outras. Também promoveu a abertura de inúmeras estradas no interior do município. Enfim, durante o seu governo, apesar das limitações financeiras e da pouca estrutura da Prefeitura, Gaspar cresceu e se desenvolveu, dando seguros passos em busca do seu destino promissor. É importante registrar que no seu primeiro ano de governo Dorval não teve salário por falta de dotação orçamentária. 

Depois, a Câmara aprovou o salário do Prefeito no valor de um salário mínimo que na época era de CR$ 7,50 (sete cruzeiros e cinqüenta centavos).

Quando assumiu a Prefeitura, tinha um chevrolet novo e quando saiu o veículo já quase não andava mais, pois estava imprestável. Como o salário do Prefeito era simbólico, teve de contrair algumas dívidas pessoais, pois além dos compromissos com o cargo ainda tinha a família para sustentar. Isso não diminuiu em nada a satisfação e o orgulho que Dorval carrega consigo por ter tido a honra de representar e servir a sua terra e a sua gente como Prefeito Municipal de Gaspar.

Hoje, aos 86 anos de idade, feliz e tranqüilo ao lado da esposa Maria, anda de cabeça erguida, certo de que cumpriu com honradez e dignidade o mandato que o povo lhe conferiu. Seu nome já faz parte da galeria dos grandes percurssores do progresso e do desenvolvimento de Gaspar”.

Edição 1608

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2 comentário(s) neste conteúdo.

Zenilda Werner da Costa
23/07/2014 às 17:27
Os cumprimentos de pesares aos familiares, em especial a Querida Dona Maria.
Grande Seu Dorval, salvador dos moradores da Margem Esquerda em Junho de 1960, propiciando que todos tivessem acesso ao centro pela Ponte Hercílio Deeke.

Família Werner
Família Seberino
23/07/2014 às 12:30
Os sentimentos de pesares à família de Dorval Rodolfo Pamplona , pessoa de bem , grande personalidade de nosso município , um homem à sua frente , grande merecedor de ser sempre um Gasparense Honorário . . .
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