Após a denúncia na segunda-feira (10) sobre professores que compram certificados de cursos de aperfeiçoamento para participar de processos seletivos e de progressão de carreira, a Secretaria de Estado da Educação informou que estuda a mudança no processo de contratação de professores temporários, os ACTs.
A próxima contratação de temporários tem prova marcada para o dia 23 de outubro. “Nós pretendemos nesta semana, até sexta-feira (14), tomar uma decisão: se alteramos o edital, se há essa possibilidade, e quais os impactos jurídicos", disse o diretor de gestão de pessoas da secretaria de Educação, Valdenir Krueger.
Neste concursos, estão previstas contratações de ACTs para escolas de todo o estado. São cerca de 42 mil candidatos, conforme a RBS TV.
A secretaria municipal de Educação de Florianópolis, que também teve um professor denunciado pela venda de certificados falsos na reportagem, informou que vai investigar o histórico de certificados aceitos em processos de ACTs.
"Vamos tentar buscar nos últimos cinco anos, de todos os certificados, e vamos verificar se essa situação ocorreu com outros professores", explicou o assessor jurídico da secretaria de Educação de Florianópolis, Roger Andrade dos Santos.
A secretaria também abriu uma sindicância interna para apurar as irregularidades e vai pedir o afastamento do professor Andrei Aderbal da Rosa. “Por se tratar de um professor substituto, contratado em caráter temporário, a assessoria vai solicitar que seja feito o afastamento prévio do professor, imediato, para que se possa fazer a apuração dos fatos", complementou Santos.
Por telefone, o professor informou à reportagem do Jornal do Almoço que trabalha com a venda de cursos de capacitação e aperfeiçoamento e não com a venda de certificados, como foi mostrado na reportagem.
Em nota, a secretaria de educação de São José disse que os professores mostrados na reportagem não fazem parte da rede do município desde 2014 e que uma comissão foi criada para apurar os fatos com processo seletivo em andamento. O órgão também diz que não vai aceitar CNPJ das empresas citadas na reportagem.
O sindicato informou que todas as denúncias devem ser apuradas. “Cabe à própria polícia investigar e depois, ao judiciário, julgar e punir esse tipo de atitude”, disse o secretário de politicas educacionais e culturais do Sindicato dos Trabalhadores da Educação (Sinte), Luis Carlos Vieira.
Uma reportagem flagrou professores de escolas públicas em Santa Catarina que que compram certificados de cursos de aperfeiçoamento. A equipe comprou dois certificados para comprovar a fraude. Os títulos serão entregues na tarde desta terça (11) ao Ministério Público de Santa Catarina (MPSC).
Para participar de uma seleção de contratação temporária, é preciso realizar uma prova escrita e outra de títulos. Quanto mais qualificação, mais pontos na seleção. Os melhores posicionados têm direito, entre outros benefícios, a escolher a escola, turma e horário de trabalho.
"Quando a gente questiona esse assunto e fala que não é certo, não acha justo, todo mundo diz: é normal", conta uma professora de uma escola de São José, na Grande Florianópolis. Segundo ela, outros professores oferecem a venda de curso de formação continuada nas próprias escolas.
"Uma compra direta. A gente escolhe a área, paga o valor, que é correspondente à carga horária, e na semana seguinte recebe o certificado. Muita gente diz que nem estuda, sempre tem uma boa colocação porque compra o curso, tem sua vaga garantida", denuncia a professora.
A reportagem procurou uma professora suspeita de vender certificados. Por telefone, ela confirma que realiza o comércio. "Tudo certificado do MEC, tá? O pessoal está fazendo de 300 horas porque os municípios estão pedindo 300, 250. Eu vendo desde 2010, aqui em São José, nunca deu problema".
A professora ainda conta que foi diretora-adjunta do colégio municipal Maria Luiza de Melo, conhecido como ´Melão´, que conta com 2,3 mil alunos e 150 professores. Ela realizava a venda no local. "Ali no Melão já vendi mais de 200 para a galera, para toda rede, sabe?", falou à reportagem.
"95% não quer fazer o curso. Aí eles pagam R$ 25 pra fazer o curso. Eu tenho outra menina, ela faz. no final eu te entrego. Aí vem teu nome, o curso, quantidade, o valor, tudo", disse a professora.
A própria professora confessou ter fraudado o próprio certificado. "Eu garabito português, mas eu zero conhecimentos gerais porque não sou daqui, sou gaúcha. E eu faço todo ano o processo seletivo, e isso eleva bastante a minha classificação, tá? Eu até brinco com as gurias, coloca uma folha branca embaixo do travesseiro e uma caneta, e tu acorda o trabalho tá pronto", conta.
Professores efetivos também estariam comprando certificados, mas para aumento de salário. Cada certificado tem um carga horária e quando o professor acumula um número fixo de horas de curso, ele recebe um aumento, uma progressão na carreira.
Copyright Jornal Cruzeiro do Vale. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita do Jornal Cruzeiro do Vale (contato@cruzeirodovale.com.br).