A última semana foi marcada pela discussão sobre o possível fechamento da Ponte Hercílio Deeke para um protesto de moradores da Margem Esquerda, que cobram agilidade na conclusão da obra de recuperação. Mas a reforma na principal travessia da cidade sobre o Rio Itajaí-Açu não é o primeiro caso que desperta mobilização popular para pressionar por algum tipo de intervenção do poder público.
Em setembro de 2011, um acidente entre uma van e um caminhão deixou quatro crianças mortas no trevo de acesso a Gaspar, no km 37 da BR-470. A tragédia foi o estopim para que moradores de vários bairros da cidade se reunissem, com apoio de integrantes da iniciativa privada e até mesmo do poder público municipal, para solicitar alguma mudança no trânsito local, com o intuito de evitar novas mortes naquele trecho da rodovia.
A cobrança inicial era pela criação de lombadas físicas na rodovia, mas a sugestão foi adaptada pelo Dnit, que poucos meses depois instalou lombadas eletrônicas. Os equipamentos de controle da velocidade foram responsáveis por reduzir praticamente a zero o número de mortes naquele trecho da rodovia.
Saldo positivo
O empresário Ronildo Marafon foi um dos organizadores daquela mobilização. Ele lembra que a comunidade estava sensibilizada e abraçou a causa, que reuniu até mesmo moradores de bairros mais distantes da rodovia. Segundo ele, a manifestação foi um sucesso e resolveu o problema, já que praticamente não há mais registros de acidentes no trevo. ?Isso deveria servir de exemplo. Se todos ficarem quietos, as coisas não mudam. No nosso caso, o resultado foi altamente positivo?, avalia.
BR-470
Reivindicação: Mais segurança no trevo da BR-470
Período: setembro de 2011
Resultado: lombadas eletrônicas foram instaladas e reduziram o número de acidentes.
Em fevereiro do ano passado, a rodovia Ivo Silveira, no bairro Barracão, foi interditada por moradores da comunidade de Vila Isabel. Na época, a comunidade também reivindicava a instalação de lombadas para reduzir o número de acidentes e atropelamentos a pedestres que cruzam a rodovia.
Após discussões e cobranças da comunidade, o caso terminou com a instalação de duas lombadas físicas, responsáveis por diminuir o número de acidentes na localidade. Ainda assim, a comunidade pedia a instalação de uma lombada eletrônica, que poderia aumentar ainda mais a segurança para motoristas e pedestres no trecho.
RODOVIA IVO SILVEIRA
Reivindicação: Instalação de lombadas na Rodovia Ivo Silveira
Período: fevereiro de 2012
Resultado: lombadas físicas foram implantadas, mas a comunidade ainda gostaria de contar com redutor eletrônico de velocidade
Em outubro de 2010, cerca de 100 moradores da localidade de Águas Negras deram as mãos e fecharam a rodovia Jorge Lacerda, na altura da entrada do bairro, durante horário de pico. A intenção era chamar a atenção das autoridades para aumentar a segurança naquele trecho da via, que registrava muitos acidentes. Um deles, um mês antes, tirara a vida do jovem Cristian Correia de Lima, de apenas 20 anos.
A comerciante Inajara de Lima, que liderou a mobilização, lembra que alguns protestos já haviam sido feitos, mas não foram suficientes para melhorar a segurança no principal acesso ao bairro. Depois de convidar moradores pela imprensa e pessoalmente, ela conseguiu a companhia de moradores para fechar a rodovia e cobrar intervenções do poder público. ?Fiz um boneco que batizei de Zé da Morte para chocar as pessoas sobre as vidas que se perderam em acidentes naquele trecho?, recorda.
Inajara recorda que a mobilização repercutiu bastante na região e, depois disso, com o trabalho de cobrança feito por ela junto a órgãos públicos, foram instaladas lombadas físicas no trecho, que diminuíram o número de acidentes e praticamente acabaram com as mortes no trecho. ?Posso dizer que a reivindicação foi atendida parcialmente, porque a promessa era de que as lombadas seriam provisórias e que haveria um projeto com uma rótula e acostamentos na entrada do bairro, algo que até hoje não aconteceu?, relembra.
Mesmo com parte das exigências ainda pendente, Inajara vê de forma positiva as manifestações da comunidade em favor de questões que possam beneficiar o cotidiano coletivo. ?É importante dizer que não adianta ir para a rua e depois abandonar a causa. No nosso caso, só tivemos um resultado positivo porque continuamos pressionando órgãos públicos e cobrando na imprensa uma solução. Só a manifestação não teria resolvido nada?, aponta.
RODOVIA JORGE LARCERDA
Reivindicação: Mais segurança no trevo das Águas Negras, na SC-470
Período: outubro de 2010
Resultado: lombadas físicas foram implantadas como solução provisória, mas o projeto de rotatória no acesso ao bairro permanece no papel
A manifestação popular para cobrar mais rapidez na reforma da Ponte Hercílio Deeke foi definida por moradores que compareceram à reunião do último dia 18, junto com a comissão de desenvolvimento da Margem Esquerda, que reúne presidentes de associações de moradores da localidade. A data definida foi 1º de fevereiro, fechando o trânsito na única pista liberada entre 17h30 e 18h30.
Após a definição, os líderes comunitários que encabeçam o movimento participaram de duas reuniões com os vereadores gasparenses e com o prefeito Pedro Celso Zuchi. O principal tema discutido foi a demora na liberação do repasse de R$ 1,2 milhão necessário para a conclusão da obra. Ao longo dos últimos 10 dias, entidades também se posicionaram sobre o tema e engrossaram o coro dos que defendem um protesto sem interromper o fluxo de veículos.
Diante deste debate, a comissão de desenvolvimento da Margem Esquerda voltará a se reunir com moradores para definir se a manifestação será mantida e se irá, de fato, bloquear a passagem de veículos na Ponte Hercílio Deeke, conforme a ideia inicial. O encontro está marcado para esta quarta-feira, 30, às 19h30, na creche Vovó Lica. As lideranças convidam moradores de todos os bairros para participar do encontro e ajudar na definição.
Sem mudanças
As explicações das duas reuniões não deixaram satisfeito o presidente da Associação de Moradores do Arraial do Ouro, Carlos José Junges, o Zecão, um dos líderes da comissão da Margem Esquerda. Segundo ele, os argumentos apresentados nos encontros com os vereadores e com representantes do Executivo foram os mesmos de outras reuniões. ?Nada mudou até agora. Vamos nos reunir novamente para apresentar o resultado das reuniões e saber qual é a vontade da comunidade?, explica.
"Única saída"
Zecão explica que a vontade da comunidade será respeitada, mas acredita que manifestações populares como as que ocorreram nas rodovias BR-470 e Ivo Silveira são as únicas opções para fazer com que a população seja ouvida. ?No país em que vivemos, este tipo de manifestação é a única saída. Só com insistência da imprensa e dos órgãos públicos, ou então com alguma tragédia, para que algo seja feito?, critica.
A promotora Luciana Uller, da 1ª Promotoria da Comarca de Gaspar, responsável pela área da cidadania, vai pedir ao juiz da Comarca que envie um ofício ao Ministério da Integração Nacional para saber os motivos da demora na liberação do repasse para a obra de recuperação da Ponte Hercílio Deeke.
A decisão faz parte da ação civil pública que envolve a ponte e ocorreu após a promotora ouvir a secretária de Planejamento de Gaspar, Patrícia Scheidt, sobre o atraso nas obras, na última sexta-feira, 25. Patrícia informou que os obstáculos informados no processo, que envolviam a realocação das redes de gás e telefonia, já haviam sido superados e que agora o entrave para a sequência da obra é a liberação dos recursos.
Segundo a promotora, a intenção é ouvir do próprio Ministério a explicação para a demora na liberação do repasse. ?Também solicitamos as informações para investigar se há alguma responsabilidade da administração municipal nesse adiamento?, revela a promotora, que promete continuar acompanhando de perto o caso.
O fechamento da ponte Hercílio Deeke, previsto para a próxima sexta-feira, dia 1º de fevereiro, está se desenhando um verdadeiro presente de grego. A reforma já dura mais de um ano, há manifestações de todos os lados e uma enorme falta de respeito com moradores, motoristas, contribuintes e empresários. A obra paralisa a cidade em seus horários de maior movimento, afasta investimentos, compradores e visitantes. E tira a paciência de todo mundo no trânsito. E, agora, seu fechamento está sendo usado como moeda de troca e atrai interesses políticos numa batalha pela verdade.
A interrupção do tráfego no local, mesmo que seja apenas por uma hora, não é boa para ninguém, essa é a realidade. Vai atrasar ainda mais o trânsito, vai dificultar a mobilidade de pessoas, automóveis, cargas, entregas e não vai surtir o efeito desejado em curto prazo. Suas consequências não serão nada agradáveis, assim como suas causas são justificáveis e até questionáveis, mas é uma medida necessária. É uma ação extrema, mas sem ela a comunidade vai continuar sendo manipulada com novas datas, novos prazos, novas desculpas.
Toda vez que a comunidade decidiu fechar uma rodovia, interromper o tráfego de veículos, teve o apoio das autoridades e da força policial. Se o fechamento da ponte Hercílio Deeke vai dar o que falar, é porque alguém está interessado em não permitir. A população merece uma resposta, assim como todas as vítimas de acidentes na BR-470, Francisco Mastela, Jorge Lacerda e tantos outros serviram de forte argumento para uma vitória, ainda que pequena, das comunidades envolvidas.
O que não se pode aceitar é a barganha política que se desenha com a possibilidade de não haver o protesto. As lideranças precisam ser ouvidas. O protesto é legítimo, assim como é urgente o desejo de toda a comunidade.
Edição 1457

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