O medo e a emoção ainda estão presentes na voz de Maria Rosália Corsani, 63 anos, sempre que relata momentos vividos durante a enchente de 1983, que trouxe grande destruição para Gaspar e todo o Vale do Itajaí. Mesmo após 30 anos, os acontecimentos que marcaram aquele ano ainda estão fortemente vivos na memória. O mês de julho de 1983 começou chuvoso e assim permaneceu durante toda a primeira semana. A chuva não cessava e os moradores de Gaspar já começavam a ficar assustados. Na época, Maria Rosália morava no bairro Lagoa junto com os três filhos, de 10, 7 e 5 anos, e o marido. ?O ano já havia começado com tempo instável, mas a chuva foi ainda mais intensa em julho. Se fosse para definir eu diria que era um verdadeiro dilúvio?, lembra. Foi no dia 7 daquele mês que a sensação de medo e pânico começou a se espalhar pela cidade.
Milhares de famílias começaram a levantar os móveis da casa temendo que o nível do rio subisse ainda mais. Naquele dia, o marido de Rosália não estava em casa e ela precisou contar com a ajuda dos vizinhos para levantar todos os pertences. ?Eu realmente pensei que a água não ia entrar na minha casa, mas naquela noite entrou. Quando eu acordei, no início da manhã do dia 8 de julho, a água já estava subindo na minha cama?. Desesperada e com medo do que poderia acontecer com os filhos, ela saiu de casa e, com a batera do vizinho, seguiu para a casa do pai, que ficava a cerca de 500 metros de distância. ?Na tarde do dia 8, umas 15 pessoas da comunidade já estavam na casa do meu pai. Achávamos que era um local seguro?, afirma Rosália.
Nesta noite, ela podia ouvir o grito dos animais e de pessoas pedindo por socorro. Após uma longa noite de medo, seu irmão, Guido Teodoro Nagel, pegou uma batera e decidiu levar todos que estavam no local para uma casa segura. ?Primeiro ele foi com a esposa e filhas e eu fiquei observando da janela. Pensei que ele não iria voltar. Quando o vi chegando à casa do meu pai a emoção foi imensa. Esta é uma cena que jamais vou esquecer?, relata, emocionada.
Em seguida, Rosália e os três filhos embarcaram na batera e seguiram, amedrontados, em direção à casa de Terezinha da Costa, uma moradora do bairro que acolheu mais de 50 pessoas. Neste local, eles ficaram por mais de 10 dias até conseguir voltar para casa. ?Quando chegamos em nossa casa, tudo estava quebrado e havia sobrado apenas a cozinha, lavação e o banheiro. Moramos lá por mais seis meses até que nos mudamos para Ilhota?. O filme que passa pela cabeça de Rosália sempre que se lembra da enchente de 1983 é longo e triste, mas traz uma história de luta e superação que ficará sempre em sua memória e na de milhares de gasparenses.
Julho de 1983 também trouxe experiências marcantes à família de Rita Deggau Schmidt, 47 anos. Como sua casa não tinha sofrido com as cheias, ela, ainda adolescente, esperou a chuva dar uma trégua para sair com uma amiga e uma pequena câmera fotográfica. Do bairro Coloninha até o Bela Vista, próximo ao Paraíso dos Pôneis, ela seguiu de bicicleta registrando toda a situação enfrentada pelos moradores de Gaspar. Até hoje estas fotos permanecem guardadas no acervo da família Deggau. ?Lembro que pegamos carona com um caminhão caçamba para tirar fotos por locais diferentes. Achei importante registrar este fato tão marcante para toda a comunidade que estava passando por momentos de muito terror?, destaca.
Além de fotografar toda a situação, Rita e a amiga trabalharam ajudando a distribuir leite para as famílias atingidas. ?Sempre que o caminhão do Exército chegava com alimentos nós saíamos de bicicleta para ajudar as famílias atingidas. A enchente não chegou a atingir minha casa e por isso tive condições de ajudar todos aqueles que estavam sofrendo tanto com esta tragédia?.
Cidade parada
Durante 15 dias do mês de julho de 1983, Gaspar ficou parada. As indústrias não funcionavam, as escolas não tinham aulas e as lojas estavam alagadas. Nada estava funcionando, além da Prefeitura, que trabalhava para socorrer as famílias desabrigadas, e o Salão Cristo Rei, onde muitas famílias atingidas encontraram abrigo. No dia 9 de julho daquele ano o rio Itajaí-Açu atingiu 15,34 metros em Blumenau. Em Gaspar a medição oficial registrou a marca de 11,029 metros.
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| Fotos: Arquivo/CV | |
Edição 1504
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