Memórias de 1983: relatos de 30 anos depois da enchente - Jornal Cruzeiro do Vale

Memórias de 1983: relatos de 30 anos depois da enchente

09/07/2013

fotopg10abrecolorMD.jpgO medo e a emoção ainda estão presentes na voz de Maria Rosália Corsani, 63 anos, sempre que relata momentos vividos durante a enchente de 1983, que trouxe grande destruição para Gaspar e todo o Vale do Itajaí. Mesmo após 30 anos, os acontecimentos que marcaram aquele ano ainda estão fortemente vivos na memória. O mês de julho de 1983 começou chuvoso e assim permaneceu durante toda a primeira semana. A chuva não cessava e os moradores de Gaspar já começavam a ficar assustados. Na época, Maria Rosália morava no bairro Lagoa junto com os três filhos, de 10, 7 e 5 anos, e o marido. ?O ano já havia começado com tempo instável, mas a chuva foi ainda mais intensa em julho. Se fosse para definir eu diria que era um verdadeiro dilúvio?, lembra. Foi no dia 7 daquele mês que a sensação de medo e pânico começou a se espalhar pela cidade. 

Milhares de famílias começaram a levantar os móveis da casa temendo que o nível do rio subisse ainda mais. Naquele dia, o marido de Rosália não estava em casa e ela precisou contar com a ajuda dos vizinhos para levantar todos os pertences. ?Eu realmente pensei que a água não ia entrar na minha casa, mas naquela noite entrou. Quando eu acordei, no início da manhã do dia 8 de julho, a água já estava subindo na minha cama?. Desesperada e com medo do que poderia acontecer com os filhos, ela saiu de casa e, com a batera do vizinho, seguiu para a casa do pai, que ficava a cerca de 500 metros de distância. ?Na tarde do dia 8, umas 15 pessoas da comunidade já estavam na casa do meu pai. Achávamos que era um local seguro?, afirma Rosália.

Nesta noite, ela podia ouvir o grito dos animais e de pessoas pedindo por socorro. Após uma longa noite de medo, seu irmão, Guido Teodoro Nagel, pegou uma batera e decidiu levar todos que estavam no local para uma casa segura. ?Primeiro ele foi com a esposa e filhas e eu fiquei observando da janela. Pensei que ele não iria voltar. Quando o vi chegando à casa do meu pai a emoção foi imensa. Esta é uma cena que jamais vou esquecer?, relata, emocionada. 

Em seguida, Rosália e os três filhos embarcaram na batera e seguiram, amedrontados, em direção à casa de Terezinha da Costa, uma moradora do bairro que acolheu mais de 50 pessoas. Neste local, eles ficaram por mais de 10 dias até conseguir voltar para casa. ?Quando chegamos em nossa casa, tudo estava quebrado e havia sobrado apenas a cozinha, lavação e o banheiro. Moramos lá por mais seis meses até que nos mudamos para Ilhota?. O filme que passa pela cabeça de Rosália sempre que se lembra da enchente de 1983 é longo e triste, mas traz uma história de luta e superação que ficará sempre em sua memória e na de milhares de gasparenses.

 

Sensações registradas

fotopg10abremenorcolorMD.jpgJulho de 1983 também trouxe experiências marcantes à família de Rita Deggau Schmidt, 47 anos. Como sua casa não tinha sofrido com as cheias, ela, ainda adolescente, esperou a chuva dar uma trégua para sair com uma amiga e uma pequena câmera fotográfica. Do bairro Coloninha até o Bela Vista, próximo ao Paraíso dos Pôneis, ela seguiu de bicicleta registrando toda a situação enfrentada pelos moradores de Gaspar. Até hoje estas fotos permanecem guardadas no acervo da família Deggau. ?Lembro que pegamos carona com um caminhão caçamba para tirar fotos por locais diferentes. Achei importante registrar este fato tão marcante para toda a comunidade que estava passando por momentos de muito terror?, destaca. 

Além de fotografar toda a situação, Rita e a amiga trabalharam ajudando a distribuir leite para as famílias atingidas. ?Sempre que o caminhão do Exército chegava com alimentos nós saíamos de bicicleta para ajudar as famílias atingidas. A enchente não chegou a atingir minha casa e por isso tive condições de ajudar todos aqueles que estavam sofrendo tanto com esta tragédia?.

 

Cidade parada

Durante 15 dias do mês de julho de 1983, Gaspar ficou parada. As indústrias não funcionavam, as escolas não tinham aulas e as lojas estavam alagadas. Nada estava funcionando, além da Prefeitura, que trabalhava para socorrer as famílias desabrigadas, e o Salão Cristo Rei, onde muitas famílias atingidas encontraram abrigo. No dia 9 de julho daquele ano o rio Itajaí-Açu atingiu 15,34 metros em Blumenau. Em Gaspar a medição oficial registrou a marca de 11,029 metros.

 

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Fotos: Arquivo/CV

 

Edição 1504

Comentários

Patricia Vieira Realy
16/05/2017 07:52
Eu nasci dia 16/07/1983, na enchente e minha mãe conta que nós ficamos no salão Cristo Rei...
Deve ter alguma coisa sobre a menina que nasciu na enchente...
Ivonir F. Dossi
10/07/2013 19:33
foi tdo tao triste, nesta epoca morava-mos em Presidente Nereu, e vimos tudo pela tv, sofremos e choramos juntos, a enchente n/ chegou la, mas via-mos o entao governador de S.C Esperidiao Amim entrando e saindo dos helicopteros tentando ajudar a todos, vimos tbem ele sofrer pelo povo catarinense!!
cecilia werner
10/07/2013 15:40
depois de 30 anos tudo está muito diferente muitas montanhas tornaram-se plainíce ,muitos locais que as águas da época invadíu foi sobterrada ,alguem podería prever oque ? poderá acontecer se essa mesma quantidade de água surgir novamente.???
joice
09/07/2013 20:03
oi hoje tenho 30 anos quando deu esta enchente eu tinha 7 meses,minha familia relembra dos momentos tb,gostaria de ver mais fotos no bairro margem esquerda,minha familia morava la porperto da fazenda da sulfabril na epoca,lembro que uma vez na escola quando eu ja tava na 4 serie,vi alguns videos e fotos e lembro que naquela época revivi muita historia,se vcs tem outro site que posso encontrar mais coisas da enchente me passe,obrigado
Rosangela Maria Wanzuit Pavani
09/07/2013 14:31
Lembro muito bem desta enchente. Trabalhava na Prefeitura de Gaspar. Era Assistente Social. Trabalhamos durante dias, dormindo apenas pouquissimas horas por noite. Ainda hoje quando escuto o som de helicóptero, relembro aqueles dias, que o som dos mesmos anunciavam chegada de mantimentos. O Alvorada se tornou QG das roupas e do pessoal do exercito e da Polícia Militar que vieram nos socorrer. Quando finalmente, tudo terminou, trabalhamos com a reconstrução do município até meados de 1984, quando fomos surpreendidos em julho com uma segunda enchente, mas não tão grave em termos de destruição.
Quanto a casa da Rosália, citada na reportagem acima, lembro muito bem quando lá chegamos e encontramos a casa com muita lama e toda destruida. Aliás, a Lagoa foi um dos bairros mais atingidos naquela epoca.
Nori Leal
09/07/2013 10:14
gostaria de ver algumas fotos da fazenda da hering em ilhota daquele ano pois eu tinha onze anos na epoca e me lembro daqueles bois todos mortos la foi muito triste

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