
Por Jean Laurindo
Era início da tarde quando saí da redação do Jornal Cruzeiro do Vale para percorrer o Centro de Gaspar. As roupas velhas, os braços sujos, rosto e cabelos envelhecidos com o auxílio de uma maquiadora. Na cabeça um chapéu que cobria parte da face e nas mãos um saco plástico com alguns pertences. O figurino até mesmo caricato deixou-me mais próximo da imagem de andarilhos que percorrem as cidades do Vale do Itajaí. A intenção era fazer algumas abordagens e saber o quão alto fala a solidariedade das pessoas poucos dias antes do Natal.
Depois de um giro rápido na Praça Getúlio Vargas, resolvi testar o disfarce com quem mais conhece esse estilo de vida, justamente alguns andarilhos que descansavam no Coreto Municipal. O grupo, de São Paulo, está há oito meses em Gaspar e considera a cidade boa para viver. ?É só não roubar e não incomodar que ninguém reclama?, orientou-me um deles, que ainda se preocupou em saber se eu já havia almoçado. Na saída, ia esquecendo minha garrafa com cachaça cenográfica quando fui alertado amigavelmente pelos trecheiros.
Segui pelas calçadas percebendo que a maioria preferia não me notar. Nos primeiros minutos, a autoestima, de tão baixa, impede de encarar qualquer um nos olhos. Passei batido até por conhecidos, reforçando na prática o conceito da invisibilidade social. Após pedir algumas moedas a pedestres, sem sucesso, abordei motoristas em semáforos da Avenida das Comunidades. O vidro fechado em função do ar-condicionado é também uma barreira. Tudo que consegui foram poucos centavos de dois motoristas mais receptivos.
De volta às ruas, após passar sem ser incomodado pelo prédio da Secretaria de Desenvolvimento Social, abordei mais alguns pedestres e atendentes de lojas em busca de ajuda para comprar um pão, dizia eu. A maioria, é verdade, nega. Às vezes mais por medo da abordagem do que por convicção. O caso mais marcante foi o de um homem carregado de presentes, todos embrulhados em belos papéis, que sequer desviou o olhar para dizer não. Uma mostra de como o espírito do Natal pode ser distorcido pela sociedade de consumo.
Mas uma parcela significativa, que precisa ser reconhecida, deixa o receio de lado e resolve ajudar. Esses gestos, por mais questionados que possam ser por analistas sociais, valem muito para quem pede e precisa. Assim como a comida tem outro sabor quando se tem fome, as moedas têm um valor muito maior quando se depende delas.
Por toda a complexidade envolvida, pedir doações em dinheiro não foi o foco principal. Os R$ 4,95 que consegui repassei no mesmo dia a um catador que encontrei na volta para casa. Em estabelecimentos como lanchonetes e postos de gasolina, aproveitamos para saber como as pessoas à margem da sociedade são tratadas quando precisam de alguma ajuda. Inspirado até mesmo na Bíblia, pedi um pedaço de pão e água. Em dois locais, fui atendido com educação e recebi um copo de água. Da torneira, mas suficiente para amenizar o calor. Em outros, nem isso. ?Essa hora não. A chefia não quer?, ouvi.
Na adolescência sempre enxerguei com simpatia o estilo de vida de hippies e nômades. A geração beat dos anos 1950 e toda a ideologia citada por autores como Jack Kerouac eram vistas com uma dose bondosa de romantismo, que enfraqueceu da mesma forma que a rebeldia e outros traços da juventude. Ao incorporar um andarilho para avaliar a reação de nossos moradores para o Jornal Cruzeiro do Vale, pude resgatar parte desta percepção. Enquanto fazia abordagens na região central da cidade, reencontrei dois dos andarilhos com quem havia conversado no início de minha andança. Enquanto eu pedia, eles coletavam materiais recicláveis, que vendidos a R$ 0,80 o quilo garantem um dinheirinho para se manter nas ruas. Questionado sobre por que eu estava ali, inventei uma desilusão amorosa e disse que vinha de Ijuí (RS), a primeira cidade que me veio à cabeça. Vendo minha situação, um deles tentou me motivar a virar o jogo. Deu conselhos, sugeriu que eu tomasse um banho, ofereceu uma roupa limpa e até um corte de barba e cabelo para seguir na estrada. ?Do jeito que você tá ninguém vai te dar nada. Eu te ajudo, ?vamo? lá. És um cara novo...?, instigou-me Ingo, o que mais pareceu se convencer do meu disfarce. Assim, do início ao fim, pude perceber que a maior ajuda costuma vir mesmo é de quem está numa situação igual ou pior à sua.![]() |
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