Histórias de quem superou a espera pela doação de órgãos - Jornal Cruzeiro do Vale

Histórias de quem superou a espera pela doação de órgãos

12/04/2013

A vida após o transplante

fotopg8abrecolorMD.jpg?É emocionante os pais esperarem a grande hora do nascimento do filho, mas garanto que a emoção de um filho ver o pai nascer de novo é indescritível?. Roberta Baptista Simas, 32 anos, viu o pai renascer de uma vida de preocupações, dores e tristezas no início deste mês. Na tarde de 2 de abril, Roberta e sua família receberam a notícia de que seu pai, Antônio José Simas, 61 anos, que sofria de insuficiência renal, tinha acabado de receber um rim e, mais do que isso, acabado de receber uma vida.

Em 2001, foi diagnosticado que Antônio sofria de um problema no rim, que não estava funcionando como deveria. Com o passar do tempo, o problema passou a se agravar e em 2008 ele precisou iniciar a hemodiálise, já que apenas 9% do rim funcionava. ?Nesta época, eu estava muito fraco e após fazer muitos exames, o médico disse que eu teria que iniciar o tratamento o quanto antes?, lembra. Desde então, três vezes por semana ele acordava às 4h20, preparava-se para ir com a ambulância até o Hemocentro, em Blumenau, onde passava por uma sessão de filtragem de todo o sangue do corpo.

No início, as sessões duravam três horas, depois passaram para três horas e meia e logo começaram a durar quatro horas. As manhãs de seu Antônio eram dedicadas apenas à hemodiálise. ?Não posso dizer que me senti mal durante todos estes quatro anos e quatro meses de hemodiálise, mas às vezes me batia uma tristeza, quase que uma depressão. Mesmo assim, fui seguindo minha vida, sem me deixar levar por isso?, ressalta.

 

Trabalho como terapia

Os dias do morador do bairro Coloninha ficaram mais felizes quando voltou a trabalhar em uma empresa, no setor financeiro. ?Eles me ajudaram muito e aceitaram o fato de eu trabalhar apenas no período da tarde nos dias em que precisava ir ao hemocentro?. Os dias difíceis, as fraquezas, as dificuldades e o fato de não poder sair de férias ou passear para lugares mais distantes eram contornados pela companhia da família e amigos e pelo trabalho, que lhe traziam ânimo e motivação.

Embora tenha iniciado a hemodiálise em 2008, apenas em julho de 2012 Antônio entrou para a fila de espera de um transplante de rim. E a grande notícia não demorou muito a chegar. No dia 2 de abril deste ano, ele recebeu uma ligação confirmando a existência de um doador potencial. A emoção, a alegria e a chance de um novo recomeço invadiram-lhe o coração e em poucas horas ele já estava em Blumenau esperando pelo transplante. ?Eu tinha que confirmar o quanto antes, já que nesses casos a rapidez é muito importante. Aceitei, sabia que era para mim?, garante. O transplante ocorreu bem e logo o rim já começou a funcionar em seu organismo, surpreendendo os médicos. Antônio já está em casa e passa bem. ?Tenho que agradecer à equipe médica, que foi muito importante para mim neste momento?. A partir de agora, a rotina de Antônio será totalmente diferente e ele agradece a Deus por ter a chance de viver tudo aquilo que precisou deixar para trás nos últimos anos.

 

 

Obstáculo vencido na adolescência

laoverdecapaMD.jpgA mudança na cor da pele de Vinícius Mateus Schwartz, 20 anos, fez com que a mãe, Solange Rosina Schmitz Schwartz, 58 anos, fosse procurar um médico. Em janeiro de 2012, foi diagnosticado que Vinícius estava com anemia, mas não em consequência da falta de ferro, como é comum, e sim devido ao mau funcionamento do rim.

?Na época foi muito difícil para nós. Perdemos o chão. Mas com muita fé conseguimos enfrentar este obstáculo?, relata Solange. O jovem também precisou se submeter à hemodiálise três vezes por semana, por três horas, durante seis meses. A mãe de Vinícius destaca que neste período ele não se desanimou nem deixou de trabalhar. ?Ele teve muito o apoio de toda a família, amigos e da namorada, algo que foi muito importante?. Quando estava no quinto mês de hemodiálise, Vinícius entrou para a fila de espera por um rim. Para sua surpresa, no dia 2 de outubro de 2012, um mês após o cadastro, veio a notícia de que ele poderia fazer o transplante. Hoje, seis meses depois do transplante de rim e aos 20 anos de idade, Vinícius já voltou a trabalhar normalmente e a realizar todas as suas tarefas. ?Ele está muito bem. Desde o início contamos com o apoio de todos, incluindo a equipe responsável pelo transplante, o que com certeza contribuiu para a rápida recuperação dele?, comemora Solange.

 

 

Dados mostram cenário dos transplantes em SC

fotopg9abrecolorMD.jpgAs histórias de doações e transplantes com final feliz em Gaspar trazem um ar de otimismo para as famílias de quem ainda precisa aguardar por um órgão. Em Santa Catarina, até o final de fevereiro, 1.184 pessoas estavam na fila de espera por algum transplante. A maior procura é por córneas, com 517 pessoas, seguida por rim (431) e fígado (101).

Os dados são da SC Transplantes, central de captação e distribuição de órgãos e tecidos ligada à Secretaria de Estado de Santa Catarina. Ligados diretamente ao Ministério da Saúde, os registros não identificam a cidade de origem de quem passou por transplantes de órgãos. No entanto, com base na população da cidade e numa proporção numérica comparada com o Estado, a equipe da SC Transplantes estima que cerca de 20 moradores de Gaspar possam estar esperando por órgãos como córnea, medula óssea, rim ou fígado.

 

?Doação de órgãos tem progredido?

Os dados referentes a transplantes e doações de órgãos feitos em 2012 foram fechados recentemente pela SC Transplantes, central de captação e distribuição de órgãos. Segundo o coordenador da SC Transplantes, Joel de Andrade, os resultados mostram que foi o melhor ano da história de Santa Catarina.

?O ano de 2011 já havia sido muito bom, mas no ano passado alcançamos a marca de 26 doadores por milhão de habitante. Para se ter uma ideia, países como Espanha, Croácia e Portugal, que têm os melhores índices de doação de órgãos, contam com pouco mais de 30 doadores por milhão de habitante?, compara. Segundo ele, se Santa Catarina fosse um país estaria entre as 10 melhores regiões do mundo em termos de doação.

Os dados também colocam o Estado em destaque no cenário nacional. Apesar do crescimento do número de doações também no país, o Brasil ainda tem média de 12 doadores por milhão de habitante. Mesmo com os avanços, Andrade, que é médico e especialista na área, reconhece que ainda há pacientes na fila de espera, o que mostra que o trabalho tem que seguir. ?Temos progredido e investido em treinamento e educação no setor. Esperamos que o ano de 2013 seja ainda melhor, o que é um desafio?, afirma.

 

Prioridades

Entre os casos com maior demanda destaca-se o transplante de córnea, com cerca de 700 catarinenses na espera. No entanto, como os pacientes desta área costumam ter apenas parte da visão prejudicada, a modalidade perde um pouco em preocupação para casos como doações de rim e fígado, com espera aproximada de 300 e 200 pacientes, respectivamente. ?Nesses casos, o transplante é praticamente a única opção, então a preocupação maior acaba girando em torno dessa modalidade?, revela o coordenador da SC Transplantes.

 

 

Edição 1479

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