
?Eu falei: se eu cair vai todo mundo junto. Eu vou botar um do lado do outro e vou comer o ... de todos eles. Pedi desculpas para a Mariluci pelo palavreado?.
A fala é do empresário Arnaldo Muller, proprietário da empresa Say Muller, responsável pela prestação de serviços de zeladoria, limpeza, portaria e sepultamento nos cemitérios municipais dos bairros Santa Terezinha e Barracão, e faz parte de uma suposta conversa telefônica entre o empresário e o ex-procurador do Município, Mário Mesquita, no dia 10 de maio deste ano, após o escândalo das cobranças indevidas pelos serviços de sepultamento e reserva de túmulos nos cemitérios municipais.
O conteúdo da conversa foi gravado por Mesquita e entregue ao Ministério Público de Santa Catarina e à Polícia Civil, que investigam o caso, e aos vereadores que integram a CPI dos Cemitérios. A equipe do Cruzeiro do Vale teve acesso exclusivo ao conteúdo na manhã desta segunda-feira, 15.
A revelação feita por Arnaldo diz respeito a uma suposta reunião que ele teria tido, a portas fechadas, com o prefeito Pedro Celso Zuchi, o chefe de gabinete Doraci Vanz, a vice-prefeita Mariluci Deschamps Rosa, o presidente do Samae, Lovídio Bertoldi, e o vereador petista Amarildo Rampelotti, que integra a CPI dos Cemitérios. ?Eu falei para eles. Expliquei tudo. O Celso sabia que eu estava sozinho... Eu cobrava por uma sepultura, no contrato velho, R$1500. Eu fazia a sepultura. Pro carente eu fazia em cinco, seis vezes. Eles iam ainda na Assistência Social e ganhavam auxílio-carneira. Daí traziam a nota pra mim da Assistência Social, eu emitia uma nota e dava pra Assistência Social e me pagavam... O cidadão pagava o restante?, explica o empresário na conversa telefônica, acusando os integrantes da Administração de terem conhecimento das cobranças indevidas que ocorriam nos cemitérios municipais.
A equipe do Cruzeiro do Vale procurou Arnaldo para confirmar se ele teve mesmo a conversa com o ex-procurador do Município e foi indicada a conversar com o advogado da empresa, Silvio Borges. O advogado revela que não pode confirmar nada sobre a ligação, pois não teve acesso à gravação. ?Na semana que vem vou à Câmara para avaliar todos os documentos que envolvem este caso. O que posso dizer é que vamos comprovar que a Say Muller não tem nada a ver com a cobrança de túmulos?.
O diretor do Samae, Lovídio Bertoldi, também foi procurado para confirmar a existência da suposta reunião denunciada pelo empresário, mas não quis falar sobre o assunto. Já o chefe de gabinete Doraci Vanz e o prefeito Pedro Celso Zuchi não atenderam ao telefone celular e não retornaram às ligações feitas pela equipe de redação junto ao gabinete durante a tarde desta segunda-feira.
OUÇA A CONVERSA NA ÍNTEGRA
A gravação telefônica e a suposta reunião denunciada pelo empresário Arnaldo foram citadas durante o depoimento de Mesquita e do ex-assessor jurídico Danilo Visconti nas auditivas da CPI dos Cemitérios na semana passada.
Além de acusar os Administradores Municipais de terem conhecimento das cobranças indevidas, os advogados acusam a Administração Municipal, da qual faziam parte até meados de maio deste ano, de falsidade ideológica, estelionato, direcionamento da licitação, formação de quadrilha e prevaricação, tudo envolvendo a licitação do cemitério municipal.
As denúncias estão fundamentadas em uma série de documentos levantados pelos advogados e que estão sendo analisados pela Polícia Civil, pelo Ministério Público e pela CPI da Câmara de Vereadores.
?Fizemos estas denúncias logo após a nossa saída com base em uma investigação paralela, onde descobrimos tudo que denunciamos. Fomos ameaçados por ir tão a fundo neste assunto. Quando descobrimos todo o rolo, saímos. A ligação do Arnaldo foi o ponto final para que decidíssemos sair da Administração. Procurei fazer o melhor possível e me senti traído?, dispara Mesquita.
O ex-procurador tem cópias da documentação das empresas que participaram da licitação realizada no início deste ano para a contratação da nova empresa que prestaria os serviços de zeladoria nos cemitérios municipais a partir de 2012. A Say Muller, vencedora da licitação, tem várias ligações com a segunda colocada, a Expansão, de propriedade do senhor Luiz Orival de Souza, até então coveiro da Say Muller. ?Quando descobrimos que tratava-se de um funcionário da Say Muller começamos a desconfiar de tudo. O senhor Luiz assinou uma procuração para que Arnaldo respondesse por ele e era esta empresa que estava fazendo as cobranças indevidas da comunidade. Ela estava cobrando e nem havia vencido a licitação?, explica Mesquita.
A suposta ligação realizada por Arnaldo e gravada pelo ex-procurador revela problemas bem maiores na Administração Municipal, que envolvem a coleta do lixo e afetam diretamente o Samae, de responsabilidade de Lovídio Bertoldi, homem de confiança de Zuchi. Arnaldo também é proprietário da empresa Reciclar, responsável pela coleta do lixo reciclável e que venceu a licitação para coletar o lixo orgânico da cidade.
Após o desabafo do empresário sobre a situação dos cemitérios, ele revelou ao ex-procurador como acabou participando da licitação e vencendo a concorrência para executar os serviços de coleta do lixo na cidade. ?Eu vou te contar, bem breve, como é que foi a história do lixo. O Celso me chamou e disse: Arnaldo, tu quer participar do lixo? Eu disse, quero...?, inicia.
Durante cerca de dez minutos Arnaldo explica como funciona o trabalho da coleta do lixo na cidade e lá pelas tantas, Mesquita intervém, questionando o que a Prefeitura e os administradores ganhariam convidando o empresário para assumir este trabalho. Esta parte da conversa está transcrita no quadro abaixo. Alguns minutos após a ligação é interrompida e a conversa termina. Estes fatos também estão sendo apurados pelo Ministério Público e pela Polícia Civil.
Trecho da conversa sobre a licitação do lixo
Mesquita: Lovídio, Celso te convidaram a participar desta licitação a troco do quê? Qual era a vantagem política, a vantagem financeira para isso, Arnaldo?
Arnaldo: A vantagem pro Município é que era mais barato. E... tu achas que nós podemos conversar tudo?
Mesquita: Independente do que vai me acontecer, nesse momento eu preciso saber a verdade. Não tem lógica você estar no seu cantinho, fazendo seu trabalho com a sua empresa de reciclagem, administrando o cemitério publico municipal e alguém da Administração ir lá te convidar para abrir um negócio novo, que é o lixo, tendo que te meter numa licitação, tendo que comprar caminhão, tendo que investir, tirar noite de sono, mudar a tua rotina... Qual a vantagem disso pro Município, pra quem te convidou e pra tua empresa. Pra tua empresa pra mim tá claro, se eu tenho uma empresa eu quero ganhar lucro em cima dela e eu vou investir. Agora, qual a vantagem da Administração, da Prefeitura ou de quem te convidou?
Arnaldo: O Celso me convidou. A vantagem era o preço e depois estar junto com eles. Até hoje, e é isso que eu acredito que deve estar pegando, até hoje eu nunca, nunca colaborei com nada.
Mesquita: Alguém tá ganhando dinheiro e muito dinheiro.
Arnaldo: Meu não.
Mesquita: O rolo do cemitério está ocorrendo por causa do receio de que vai atingir o lixo. E eu já percebi nas tuas palavras que tu fosse um bode expiatório, como eu também. Mas alguém está ganhando dinheiro com esse negócio do lixo...
Arnaldo: Aí, eu acredito que tem também alguma coisa com o aterro.
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Edição 1432

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