Por Ana C. Bernardes
De longe, a igualdade em suas formas e cores dá a impressão de um local organizado. De perto, a realidade invade os olhos e mostra um lugar com algumas situações precárias e ainda em fase de desenvolvimento. Embora as casas deste terreno sejam esteticamente iguais, feitas em PVC e compostas por dois quartos, um banheiro e um cômodo que serve tanto para sala quanto para cozinha, cada família transformou-as em um lar, enchendo as novas residências de sonhos, alegrias e esperanças de um futuro melhor.
Do lado de fora, crianças correm pelas ruas de barro, acompanhadas de seus cachorros. No campo de futebol improvisado, algumas delas também se divertem com uma bola, embaixo do forte sol do meio-dia, enquanto os pais trabalham. Este é o loteamento instalado às margens da BR-470, composto por famílias grandes e pequenas, homens e mulheres batalhadoras e pessoas que perderam todos os bens materiais, mas que nunca desistiram de lutar pelos seus direitos.
Grande parte das 70 casas que compõem o loteamento já está ocupada, abrigando famílias de três a sete pessoas. Aqueles que sentem necessidade de aumentar o espaço já estão autorizados a realizar a obra, entretanto, a Prefeitura orienta os moradores a respeitarem certos limites.
Há um ano, as primeiras famílias se mudavam para este local e desde então, os moradores revelam que a infraestrutura no loteamento melhorou. Apesar disso, ainda há algumas dificuldades que devem ser vencidas todos os dias, como a falta de pavimentação e rede de esgoto na proporção necessária.
Obra de urbanização
Um dos maiores problemas enfrentados pela comunidade local é quanto ao esgotamento, que, por ser provisório, não consegue atender a grande demanda de moradores. Sobre o assunto, a secretária de Planejamento e Desenvolvimento, Patrícia Scheidt, revela que uma licitação foi aberta em maio deste ano para selecionar a empresa responsável pela urbanização do loteamento, porém nenhuma empresa apresentou propostas.
Desta maneira, a Prefeitura cadastrou a obra de urbanização do loteamento, que prevê trabalhos de esgoto, drenagem e pavimentação, no Programa de Aceleração do Crescimento, PAC 2. O projeto deverá ser encaminhado à Caixa Econômica Federal até o dia 23 de novembro para aprovação. ?O projeto é realmente bom e por isso estamos confiantes. Se tudo ocorrer como esperamos, acredito que até janeiro teremos a resposta da Caixa?, explica.
Caso o projeto não seja aprovado, o município iniciará no próximo ano a obra de esgotamento com recursos próprios. A drenagem e a pavimentação das vias seriam realizadas mais tarde, já que o investimento é muito alto.
Reconstrução de escola pode ajudar planejamento
Outro questionamento levantado pelos moradores do loteamento às margens da BR-470 é quanto à reconstrução da Escola Angélica Costa no local. O educandário ficava no bairro Sertão Verde até 2008, quando foi destruído pela catástrofe daquele ano. Desde então, a escola passou a funcionar no bairro Margem Esquerda, no mesmo prédio da Escola Norma Mônica Sabel. O educandário seria construído no loteamento pela Fundação Bunge.
Em uma reunião realizada na última quarta-feira, 7, entre membros da Bunge e da Prefeitura, esta questão foi discutida. Conforme explica a secretária de Planejamento e Desenvolvimento, a Fundação Bunge queria que o loteamento já tivesse passado pela urbanização para que as obras da escola iniciassem, por isso a demora. ?Infelizmente, ocorrem imprevistos. Nesta reunião, nós estipulamos um prazo, que se estende até ano que vem, para que a reconstrução da Angélica Costa inicie. Caso isso não aconteça, o município buscará novas alternativas, já que sabemos como esta obra é importante?, ressalta.
Patrícia diz ainda que com uma escola no local, haveria um controle melhor de todo o loteamento e também da comunidade. Dessa maneira, as melhorias poderiam ser realizadas com maior planejamento.
Há um ano, as famílias de Ivone Nogueira e Eva do Carmo Nogueira deixaram para trás as perdas e sofrimentos e iniciaram uma nova etapa em suas vidas. As duas famílias foram as primeiras a se mudar para o loteamento às margens da BR-470 construído para abrigar aqueles que perderam suas casas na catástrofe de 2008.
Ivone e Eva passaram por grandes dificuldades naquela época, quando viram os imóveis próprios serem completamente destruídos com a enchente de 2008. Durante aproximadamente três anos elas viveram em residências alugadas e, assim que receberam as chaves dos novos imóveis, não perderam tempo e foram logo realizar a mudança. Na época, a reportagem do Cruzeiro do Vale entrevistou as primeiras moradoras, que apontaram as principais limitações das novas moradias.
Depois de um ano vivendo em uma das casas de PVC doadas pelo reino da Arábia Saudita, Ivone diz que os avanços em todo o loteamento foram muitos. ?Assim que chegamos, não tínhamos água, energia elétrica e rede de esgoto. Foram 55 dias vivendo dessa maneira, mas a certeza de possuir um local para morar supera qualquer dificuldade?, afirma.
Ivone mora com o marido e um filho e para ampliar e melhorar a residência a família construiu uma garagem e um muro ao redor da casa. Hoje, a primeira moradora revela que gosta de residir no loteamento e que grande parte das pessoas que ali vivem está satisfeita. ?Para mim, a situação está boa. O loteamento está muito mais organizado e agora também temos rede de esgoto?, destaca.
Ainda conforme Ivone, há alguns problemas que devem ser resolvidos o quanto antes para que toda a comunidade local se beneficie ainda mais, como, por exemplo, a limpeza de um grande matagal que cresceu no loteamento. ?Às vezes, saem bichos desse mato e isso é perigoso para as crianças, principalmente?.
Apesar dos problemas
Marisa Maschio, 36 anos, e outros seis familiares vivem em uma das casas do loteamento às margens da BR-470. Embora o espaço seja muito pequeno para tantas pessoas, a dona de casa acredita que as vantagens da casa própria são suficientes para trazer felicidade. ?Problemas todos sabem que existem, mas quem faz o lugar é a gente e todos aqui de casa estão satisfeitos por ter um teto?, afirma.
Como a família é grande, Marisa conta que construiu uma pequena área que serve como quarto. A família Maschio já está no local há sete meses. Antes disso, eles pagavam aluguel no bairro Bela Vista e também se mudaram para o município de Navegantes, onde foram viver com alguns familiares. ?Nossa casa foi interditada na enchente de 2008 e passamos um sufoco desde então. Por isso estamos tão felizes por esta casa?, revela Marisa.
Sobre o loteamento, a dona de casa diz que mesmo simples é um lugar bom e tranquilo de se viver.
Ponto de ônibus, áreas de lazer e melhorias na rede de esgoto. Estes são alguns dos pedidos reivindicados por diversos moradores do loteamento às margens da BR-470. Ainda conforme a moradora Marisa, aqueles que vivem no local sofrem com a falta de estabelecimentos, escolas e postos de saúde próximos. ?Tudo é muito longe e nós não temos muitos horários de ônibus. Quem não tem carro, como eu, tem que se virar?. Marisa diz também que o Posto de Saúde mais próximo é o do bairro Belchior Baixo, porém o médico só atende uma vez por semana.
Alcir Ferraz, 44 anos, se mudou para o local em janeiro deste ano e pôde acompanhar o desenvolvimento da área. Por mais que esteja satisfeito por ter uma casa própria, o morador destaca que ainda há muito a ser feito, principalmente porque o poder público municipal garantiu certos serviços que até hoje não foram realizados. ?A Prefeitura prometeu melhorar o esgoto para nós, mas até agora nada. Isso é muito importante, pois a tubulação que temos hoje não dá conta?, observa. Além disso, lembra Alcir, o terreno não conta com uma área de lazer digna, apenas um pequeno campo de futebol improvisado.
Para Márcio André de Oliveira, 40 anos, que vive no local há cinco meses, a falta de pavimentação nas ruas do loteamento é o principal problema enfrentado pelos moradores. ?Se não é a poeira é a lama e nós sofremos muito com isso. Uma obra de pavimentação aqui é prioridade, assim como a instalação de uma rede de esgoto maior?, aponta.
Edição 1439

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