Por Ana C. Bernardes
A dor da perda e a saudade ainda fazem parte da rotina de Iara Cunha, mãe da pequena Pamela Thays Cunha. A falta que a filha faz está estampada em seu rosto, juntamente com a inconformidade de não tê-la mais ao seu lado.
Duas datas marcam o calendário da família e trazem ainda mais tristeza para esta jovem e sofrida mãe. Os dias 23 de setembro e 8 de outubro de 2002, quando sua filha, que na época tinha apenas nove anos e idade, desapareceu, e quando seu corpo foi encontrado em um matagal, no Morro do Parapente.
No próximo mês de setembro completam-se 10 anos desde que Pamela deixou sua família, amigos e muita saudade, e Iara não consegue deixar de pensar ou falar sobre ela em nenhum momento do seu dia.
Hoje, a mãe imagina como a filha estaria, se cursaria a faculdade e se teria se casado, já que completaria 20 anos de idade no dia 30 de outubro. ?Eu vejo meus familiares, que têm praticamente a mesma idade que ela teria, casando-se e alguns tendo seus filhos, e penso se isso aconteceria com ela também. É inevitável?, diz Iara, emocionada.
Para ela, Pamela estaria na universidade, já que era uma menina muito dedicada aos estudos e bastante esperta, e próxima de se casar. Ela não seria muito alta, continuaria magra e teria os cabelos compridos. ?Ela nunca gostava quando eu cortava seus cabelos curtos. Às vezes, não sei se imaginar como ela poderia estar é algo que me deixa feliz ou triste. A dor da sua falta ainda é muito intensa?, revela.
Momentos de altos e baixos
Os últimos dez anos foram de altos e baixos para Iara, seu marido Lupércio e suas filhas Tainara, 15 anos, e Vitória, 9 anos. A mãe de Pamela afirma que, por algum tempo, aguentou firme a angústia de não ter uma resposta concreta sobre o caso e também o vazio que ficou instalado em seu peito desde o desaparecimento da filha primogênita.
Porém, neste ano, grande parte da dor voltou com muita força, e ela precisou retornar seu tratamento psiquiátrico. ?Esta, por exemplo, é uma das piores épocas que existe. Vem setembro e outubro, e a minha tristeza só aumenta. Penso nela todos os dias, a todo momento. Principalmente este ano, que a Tainara, que nunca comentou sobre esse caso com ninguém, colocou uma foto dela em seu quarto. Isso me chocou bastante?, lamenta. Quando estas datas se aproximam, Iara prefere ficar em sua própria casa, sozinha com suas lembranças.
Sua vida hoje segue com um vazio em seu peito, porém, como ela mesma diz, a vida deve continuar, principalmente por ter outras duas filhas que precisam de uma mãe forte. Iara trabalha cuidando de um idoso, e isso a ajuda a ter outros pensamentos. ?Muitas pessoas me dizem que eu falo muito sobre a Pamela, mas eu prefiro isso a guardar para mim. Se esse assunto fica guardado apenas na minha cabeça eu sofro ainda mais?, destaca. Após todos os acontecimentos, o jeito de tratar as outras duas filhas mudou. O medo e a preocupação são ainda maiores, e a atenção é sempre redobrada.
Sem esperanças de justiça
Quanto à solução do caso, Iara diz que sua esperança teve fim há alguns anos. Segundo a mãe, o único acusado do crime, Dinart Fernandes Júnior, preso em 2003 e, mais tarde, absolvido do envolvimento no crime, seria realmente o responsável pela morte de sua filha. ?Isso nunca sairá da minha cabeça. Para mim, foi ele sim, mas a justiça não foi feita e isso me revolta ainda mais?, conta.
Ao contrário de Iara, a avó de Pamela, Inês Cunha, ainda acredita que o cruel assassino será encontrado, e a angústia de toda a família terá um ponto final. ?Não saber quem fez nos incomoda e machuca muito. Nós tivemos que nos conformar com a sua perda, porém jamais esqueceremos da criança linda e doce que era a Pamela?, emociona-se.
Um dia de desespero e angústia para a família Cunha
O dia 23 de setembro de 2002 foi marcado pelo desespero e pela angústia de toda a família e amigos da pequena Pamela, que na época tinha apenas nove anos de idade. Foi neste dia que a menina desapareceu, depois que saiu de casa para comprar orelhas de gato em uma padaria próxima ao local onde morava. Os 16 dias que se seguiram ao desaparecimento da menina foram de intensa apreensão para os familiares e toda comunidade gasparense, que ainda tinham esperanças de que ela estivesse viva.
Porém, no dia 8 de outubro, a esperança foi substituída pela dor e sofrimento, quando o corpo da criança foi encontrado em um barranco em meio a um matagal no morro do Parapente, no Poço Grande, em adiantado estado de decomposição.
A informação de que poderia haver um corpo naquele local foi dada por Élcio Carlos de Oliveira, que é piloto de parente e, naquela época, ia até o local todos os fins de semana. ?Quando fui até o morro do Parapente no sábado, dia 5 de outubro, estranhei a quantidade de urubus que estavam no local, e também o forte cheiro, mas não fui verificar. Quando voltei no domingo, dia 6, também para voar de parapente, percebi que as aves ainda estavam por lá. Nem passou pela minha cabeça, naquele momento, que poderia ser o corpo da criança que estava atraindo os urubus?, explica.
Élcio acordou assustado na madrugada de terça-feira, dia 8 de outubro, após sonhar que era o corpo da menina Pamela que estava naquele matagal. ?Logo pela manhã, encontrei um soldado da Polícia Militar e contei sobre os urubus, o mau cheiro e o meu sonho. Fomos até o local, juntamente com o Corpo de Bombeiros?, lembra.
O sonho de Élcio foi confirmado, e o corpo foi encontrado por volta das 8h45. A menina estava sem a roupa de cima e usando apenas uma saia verde. Exames periciais comprovaram que Pamela foi violentada sexualmente e morta por asfixia. ?Foi chocante, e é algo do qual me recordo até hoje. É impossível não lembrar desta terrível história toda vez que vou até o local?.
Diante da brutalidade do crime, toda a comunidade se uniu para que, juntamente com a polícia, o autor do assassinato pudesse ser encontrado. Manifestações, protestos e passeatas foram realizados por centenas de pessoas, que imploravam pela solução do caso e pela prisão do assassino. Entretanto, o culpado de ter cometido tal ato nunca foi encontrado.
Durante as investigações, a polícia chegou a um suspeito, que foi preso em 2003. Dinart Fernandes Júnior foi acusado de ser o autor do sequestro, estupro, atentado violento ao pudor e ocultação do cadáver de Pamela, porém, em agosto de 2006 o juiz de direito da Terceira Vara da Comarca de Gaspar, Sérgio Agenor de Aragão, julgou improcedente a denúncia contra Dinart e o caso foi arquivado.
Investigações
Após as investigações policiais, e o encaminhamento do processo a Terceira Vara da Comarca de Gaspar, o caso Pamela foi arquivado em 2006, e até hoje não foi reaberto. Na época, a justiça julgou o caso com as provas que tinha, porém não foram suficientes para a solução do mesmo.
Cronologia do caso
- No dia 23 de setembro de 2002, por volta das 15h30, a menina Pamela saiu de casa para ir até à padaria comprar orelhas de gato, a pedido da sua mãe, e não retornou.
- No dia 8 de outubro, 16 dias após o desaparecimento da menina, o corpo foi encontrado, no Morro do Parapente. Exames periciais comprovaram que ela foi estuprada e morta por asfixia.
- No dia 10 de maio de 2003, Dinart Fernandes Júnior foi detido pela polícia. Contra ele havia um mandado de prisão preventiva expedido pela Comarca de Porto Belo, onde era acusado de atentado violento ao pudor contra uma criança de oito anos.
- No dia 6 de abril de 2004, o Ministério Público pediu que Dinart fosse a júri popular por estupro, assassinato e ocultação de cadáver.
- No dia 17 de maio de 2004, a então juíza Nádia Inês Schmidt oficializou decisão de não mandar Fernandes a júri popular, por falta de provas.
- No dia 2 de maio de 2006 o juiz da Terceira Vara da Comarca de Gaspar, Sérgio Agenor Aragão, absolveu Dinart e encerrou o caso.
Semelhanças em outros dois casos não resolvidos
Outros dois casos ocorridos em 1991 idênticos com o de Pamela e que até hoje não foram solucionados ainda permanecem na memória dos gasparenses. Fabiana Carla de Freitas, 13 anos, foi estuprada, morta e escondida em um matagal próximo à ponte pênsil do Ribeirão Gaspar Grande, divisa dos bairros Gasparinho e Gaspar Grande. A garota foi encontrada no dia 17 de maio, e estava seminua, vestindo apenas uma camiseta. Ela foi estrangulada. Fabiana estava desaparecida desde o dia 14 de maio, quando saiu para ir à escola e não retornou para casa.
O segundo caso é o de Adriana da Conceição, 15 anos, encontrada no dia 10 de outubro, daquele mesmo ano, nos fundos da Escola Professor Honório Miranda, em um matagal. Ela estava desaparecida desde o dia 20 de setembro. O corpo foi descoberto por dois estudantes que brincavam no local. Devido ao avançado estado de decomposição do corpo, há cerca de 20 dias no mato, não foi possível descobrir qual a causa de sua morte. Até hoje, nenhum acusado foi preso.

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