Demolição reacende trajetória dos engenhos de Gaspar - Jornal Cruzeiro do Vale

Demolição reacende trajetória dos engenhos de Gaspar

26/04/2013

Por Ana C. Bernardes

 

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O entulho de tijolos e madeiras espalhado pelo terreno não revela a grande e importante construção que ali existiu por mais de duas décadas. O antigo prédio localizado na rua São José, no Centro, que já abrigou um engenho de arroz entre as décadas de 1950 e 1970, foi demolido nesta semana, levando um pouco da tradição, da história e da memória do município, que por anos foi marcado pelas grandes indústrias beneficiadoras de arroz.

A reportagem do Cruzeiro do Vale mergulhou na história destas indústrias e do início da rizicultura na cidade e encontrou pessoas que vivenciaram esta época. Com as entrevistas, foi possível perceber que os mais de seis engenhos de arroz instalados em Gaspar suportaram diversas fases e também algumas crises e foram de extrema importância para a economia e desenvolvimento da cidade.

 

Rizicultura

A produção do grão em Gaspar teve início em 1880, mas foi no início do século 20 que esta cultura tomou força no município, com a chegada dos italianos que antes habitavam cidades como Rodeio e Ascurra. De acordo com a pesquisadora e escritora Leda Maria Baptista, nesta época estes imigrantes passaram a realizar o plantio de arroz irrigado, já que as terras da região eram propícias para isto. ?Com a chegada de José Mondini, o pioneiro desta produção, outras famílias também vieram para o município, o que fez com que a cultura do arroz se tornasse muito forte?, explica.

Até então a maior parte do arroz era colhido para consumo próprio. Para prepará-lo, os agricultores utilizavam um pequeno engenho, onde tudo era realizado de forma artesanal. ?Até mesmo depois da chegada dos grandes engenhos de arroz, muitas famílias preferiam o grão preparado desta maneira artesanal, devido, principalmente, à higiene com que eram tratados?.

 

Os engenhos da cidade

foto8MD.jpgCom o aumento do cultivo de arroz, os grandes engenhos começaram a ser criados e os bancos de mercadorias, com a comercialização e a troca de produtos, ficaram cada vez mais fortes. ?A economia municipal passou a crescer e o arroz foi parte fundamental disto?, ressalta Leda. O sucesso da rizicultura na época, destaca a pesquisadora, se deu pelo fato dos italianos, que iniciaram o cultivo, terem aproveitado as terras que Gaspar já possuía e as suas condições, que eram propícias ao cultivo do arroz irrigado.

Leda destaca que os engenhos de arroz chegaram ao fim devido ao advento da tecnologia. ?Foi algo inevitável, que acompanhou o que estava acontecendo em todo o mundo?, conta. Embora estes espaços das indústrias tenham sido, na sua maioria, extinguidos, a rizicultura é ainda um negócio forte no município e de extrema importância para a economia e o desenvolvimento.

 

 

 

Alegria para a família Fachini

fotopg9retranca1colorMD.jpgAlegre em relatar uma época boa da vida, José Fachini, 76 anos, conhece bem a história dos engenhos de arroz em Gaspar. O pai de seu José, Hermínio Fachini, foi o responsável por trazer à cidade mais um engenho de arroz, na década de 1950. Junto com outros sócios, como Leopoldo Dagnoni e Silvio Ferreti, seu Hermínio adquiriu um prédio na rua São José, no Centro, onde antes havia uma usina. ?Meu pai já tinha trabalhado com engenhos, tanto que possuía um em Rio dos Cedros. Por este motivo e por já ser agricultor ele achou que um engenho de arroz em Gaspar seria um bom negócio?, relembra José.

A União dos Plantadores de Arroz de Gaspar Ltda logo trouxe grandes benefícios aos sócios e seguiu por um bom caminho. Conforme, José, que trabalhou no engenho entre os anos de 1964 e 1967 realizando as mais variadas atividades, os trabalhos seguiam apenas durante a safra de arroz, que durava cerca de três meses. Após este período, o alimento era armazenado para que, posteriormente, pudesse ser vendido com um valor maior. ?Era assim que conseguíamos nos manter. O negócio era realmente lucrativo?, destaca.

Diferente de outros engenhos da cidade, o da família Fachini, além de vender o produto para toda a comunidade gasparense, também vendia para o estado de São Paulo. ?Nossa produção era ótima. Conseguíamos beneficiar cerca de 200 sacos de arroz por dia?. Na época, eram vendidos apenas sacos de 60 quilos do grão.

Em 1964, com o golpe militar, os sócios da União dos Plantadores de Arroz de Gaspar sofreram um grande prejuízo. Os militares mandaram vender todos os sacos de arroz que eles tinham armazenado e que seriam vendidos após a safra. ?Não podia ter alimento estocado, então fomos obrigados a vender os milhares de sacos do alimento. Isto abalou o engenho, mas os sócios conseguiram se recuperar?, afirma o homem de 76 anos.

Porém, no fim da década de 1960, seu José revela que o engenho passou a perder a força. ?Meu pai precisou se ausentar, por um período, para cuidar de minha mãe que estava muito doente. Quando ele retornou, já havia muitas dívidas e o engenho tinha perdido muito dinheiro?, revela.

Seu Hermínio preferiu vender sua parte e sair de vez dos negócios. Depois disso, a indústria passou a ser administrada pelos outros sócios e após cerca de dois anos foi vendida para a família Krauss, que já possuía outro engenho. ?Chegaram a oferecer dinheiro para o meu pai continuar administrando o negócio, mas ele preferiu não se envolver mais?. A indignação por não poder continuar com o engenho de arroz ainda se faz presente nos olhos de seu José Fachini, que diz que ver o antigo negócio da família vir abaixo é algo muito triste. ?Não é fácil olhar para aquilo que ainda poderia ser seu e perceber que já não há o que se fazer para se recompor?.

 

Novidade para a família Pamplona

fotopg9retranca2colorMD.jpgUm dos primeiros engenhos de arroz da cidade pertenceu à família Pamplona. A iniciativa partiu de Rodolfo Vieira Pamplona, que ao lado de outros 12 sócios fundou a Indústria Beneficiadora Gasparense S/A, em 1936. Segundo um dos filhos de Rodolfo, que também trabalhou no antigo engenho, Paulo Rodolfo Pamplona, 88 anos, a antiga indústria de arroz ficava no bairro Coloninha, próximo ao campo do Tupi. Cheio de orgulho, Paulo revela que seu pai foi o responsável por encontrar o terreno e começar a construir o galpão de madeira. ?Meu pai, que era agricultor, percebeu que as plantações de arroz estavam crescendo muito em Gaspar. Então, decidiu chamar outros agricultores e fundar a indústria beneficiadora?, relata. O engenho dos Pamplonas, assim como o da família Fachini, também só ficava ativo durante a safra de arroz. Por este motivo, destaca seu Paulo, o engenho não era um negócio muito lucrativo para a família.

Após alguns anos, na década de 1950, seu Rodolfo passou suas ações para um de seus filhos, Dorval Pamplona. Com a administração de Dorval, o engenho passou a crescer ainda mais. ?Como o engenho ficava parado após a safra, ele começou a comprar arroz seco do Rio Grande do Sul para que pudesse ser beneficiado também em outros meses?, explica. Porém, na década de 1970, Dorval se aposentou e vendeu as ações para um de seus filhos, que não conseguiu administrar o engenho de arroz. Desta maneira, a indústria chegou ao fim. ?Foi triste ver seu fim, já que este foi um dos primeiros engenhos de arroz do município. Acredito que ele poderia ter sobrevivido por mais algum tempo, mas não muito, já que havia muitos outros na cidade?.

 

União para a família Krauss

fotopg9retranca3colorMD.jpgUm dos maiores engenhos de arroz do município, e que durou mais tempo, foi o da família Krauss, que ficava localizado na rua Barão do Rio Branco, onde hoje é a Padaria 7 de Setembro. Chamado de Indústria e Comércio de Arroz Krauss Ltda, o negócio foi fundado por dois irmãos, Arnoldo e Leopoldo Krauss, em abril de 1943. Durante todos os anos em que esteve ativo, apenas familiares administraram o engenho, tendo como sócios também os irmãos Adolfo, José Paulo, Irineu, Erico e Laércio. Segundo a esposa de seu Irineu, um dos sócios, Maria Ignês Garcia Krauss, 78 anos, o arroz era tratado durante a safra e após isto o engenho fechava suas portas e esperava a próxima colheita. ?O grão era comprado em Gaspar, mas as vendas se concentravam mesmo em São Paulo?, destaca. O negócio era lucrativo para toda a família e por isso conseguiu se manter até meados da década de 1980. 

Ainda conforme dona Maria Ignês, o engenho de arroz possuía máquinas modernas, que não eram encontradas nas outras indústrias da cidade. Na década de 1970, a sociedade foi dividida entre os irmãos. Com isto, os familiares que deixaram este engenho compraram o da rua São José, que pertencia à família Fachini e sócios. A indústria dos Krauss chegou ao fim em 1983, quando Irineu se aposentou. ?Ele descobriu que estava doente e isto também fez com que se afastasse. Com medo de que os negócios não continuassem bem, meu marido decidiu fechá-lo?, explica Maria Ignês. Até hoje, parte da construção existe.

 

 

Edição 1483

Comentários

Adilson Luis Schmitt
26/04/2013 22:33
Engenhos de Gaspar

Bela reportagem, que mostra o quanto um Povo precisa ter sua história preservada. Este legado precisa ser preservado para as futuras gerações. Hoje o prédio que abriga a agência do ITAÚ, esta de pé porque na época o Prefeito, não cedeu as pressões do proprietário e da Diretoria do Banco Itaú.
Antonio Medeiros
26/04/2013 22:21
Assunto complicado de comentar.
Tenho parentes idosos que tem saudades de ruas de chão batido, de carroças, dizem que eram felizes e não sabiam.
Infelizmente ou felizmente o tempo é o responsável, e agora é outra época, daqui a alguns anos será nossa vez de sermos saudosistas...

Saudades sempre haverá, mas imaginem se o centro da cidade ficar com casarões velhos, mesmo que sejam preservados, como haveria progresso?
Agora, se houvesse um estudo de crescimento para a área comercial ir para outro lugar, mais amplo e moderno, e preservar o centro velho, como na época colonial, mas como não há planejamento, vão construindo aberrações aonde fica visível para mostrarem para o povo na época da eleição, e fazem cada obra que não sei como teve engenheiro corajoso que assinou o projeto...

Por isso não devemos nos apegar aos bens materiais, temos sim é que saber viver, aprender que tudo na vida é passageiro, e aproveitar o momento.
marco
26/04/2013 21:27
A reportagem de hoje deixou uma duvida quanto a foto usada e texto da capa, pois o predio demolido não confere com a texto da capa, nas paginas internas do jornal m ateria muito bem feita somente elogios tenho tecer. O que tenho a informar que a Padaria 7 está neste predio por 23 anos
Rodrigo
26/04/2013 15:14
Existem políticas públicas que podem ser implementadas para proteção do patrimônio arquitetônico. Não é necessário a prefeitura pagar, muito menos o proprietário deixar de ter lucro com o imóvel. Incentivos, isenção de taxas, impostos, por si só ja podem fazer valer a pena preservar o imóvel em estado integro, com segurança e com renda.
Mas é preciso vontade.

Vejamos o caso da agência do banco ITAÚ, segura, bonita, e com imóvel preservado.

A chaminé, hoje estaria onde fica uma praça. Porque não se preservou? Para quem conheçe o município de Rio Negrinho, a chaminé de lá, inspira todo um natal luz.

Esta bandeira, deve ser apartidária. Caso contrário a história e as estórias, estaram apenas nos livros e fotos antigas.
Carlos
26/04/2013 14:14
É verdade Luciana, nossa história está sendo demolida, nossa história não, porque a história existirá para sempre, o que está sendo demolido são ranchos que os proprietários nunca se preocuparam em mante-los, deixaram o tempo corroê-los e agora correndo risco de desmorona-los pondo em risco pessoas. Não sejamos injustos, a manutenção é de responsabilidade do proprietário bem como a demolição. Caso queriam que seja mantido como patrimônio histórico, alguém terá aque pagar para tal e lhe garanto Luciana, não é a prefeitura... O que realmente deveria ter sido mantido e não foi, era aquela chaminé, uma das mais altas, se não a mais alta do estado, que estava onde hoje existe um lindo e moderno centro empresarial que agrega e embelaza muito mais que aquela ranchalhada que ali existia...
Jose airton salvio
26/04/2013 12:16
Lembro um pouco desta epoca. Meu PAI fornecia arroz para estes engenho. Na epoca do S.r Tita Kraus que ia buscar o arroz na casa dos produtores com um caminhao ford bem antigo. Mas que na epoca era os mais modernos. Tempo bom.....
Luciana
26/04/2013 09:22
Nossa história, esta sendo demolida a anos, com o aval do prefeito Zuchi. Uma cidade que não preserva seu patrimônio histórico, é uma cidade sem planejamento. É uma pena.

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