Por Ana C. Bernardes
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O entulho de tijolos e madeiras espalhado pelo terreno não revela a grande e importante construção que ali existiu por mais de duas décadas. O antigo prédio localizado na rua São José, no Centro, que já abrigou um engenho de arroz entre as décadas de 1950 e 1970, foi demolido nesta semana, levando um pouco da tradição, da história e da memória do município, que por anos foi marcado pelas grandes indústrias beneficiadoras de arroz.
A reportagem do Cruzeiro do Vale mergulhou na história destas indústrias e do início da rizicultura na cidade e encontrou pessoas que vivenciaram esta época. Com as entrevistas, foi possível perceber que os mais de seis engenhos de arroz instalados em Gaspar suportaram diversas fases e também algumas crises e foram de extrema importância para a economia e desenvolvimento da cidade.
Rizicultura
A produção do grão em Gaspar teve início em 1880, mas foi no início do século 20 que esta cultura tomou força no município, com a chegada dos italianos que antes habitavam cidades como Rodeio e Ascurra. De acordo com a pesquisadora e escritora Leda Maria Baptista, nesta época estes imigrantes passaram a realizar o plantio de arroz irrigado, já que as terras da região eram propícias para isto. ?Com a chegada de José Mondini, o pioneiro desta produção, outras famílias também vieram para o município, o que fez com que a cultura do arroz se tornasse muito forte?, explica.
Até então a maior parte do arroz era colhido para consumo próprio. Para prepará-lo, os agricultores utilizavam um pequeno engenho, onde tudo era realizado de forma artesanal. ?Até mesmo depois da chegada dos grandes engenhos de arroz, muitas famílias preferiam o grão preparado desta maneira artesanal, devido, principalmente, à higiene com que eram tratados?.
Com o aumento do cultivo de arroz, os grandes engenhos começaram a ser criados e os bancos de mercadorias, com a comercialização e a troca de produtos, ficaram cada vez mais fortes. ?A economia municipal passou a crescer e o arroz foi parte fundamental disto?, ressalta Leda. O sucesso da rizicultura na época, destaca a pesquisadora, se deu pelo fato dos italianos, que iniciaram o cultivo, terem aproveitado as terras que Gaspar já possuía e as suas condições, que eram propícias ao cultivo do arroz irrigado.
Leda destaca que os engenhos de arroz chegaram ao fim devido ao advento da tecnologia. ?Foi algo inevitável, que acompanhou o que estava acontecendo em todo o mundo?, conta. Embora estes espaços das indústrias tenham sido, na sua maioria, extinguidos, a rizicultura é ainda um negócio forte no município e de extrema importância para a economia e o desenvolvimento.
Alegre em relatar uma época boa da vida, José Fachini, 76 anos, conhece bem a história dos engenhos de arroz em Gaspar. O pai de seu José, Hermínio Fachini, foi o responsável por trazer à cidade mais um engenho de arroz, na década de 1950. Junto com outros sócios, como Leopoldo Dagnoni e Silvio Ferreti, seu Hermínio adquiriu um prédio na rua São José, no Centro, onde antes havia uma usina. ?Meu pai já tinha trabalhado com engenhos, tanto que possuía um em Rio dos Cedros. Por este motivo e por já ser agricultor ele achou que um engenho de arroz em Gaspar seria um bom negócio?, relembra José.
A União dos Plantadores de Arroz de Gaspar Ltda logo trouxe grandes benefícios aos sócios e seguiu por um bom caminho. Conforme, José, que trabalhou no engenho entre os anos de 1964 e 1967 realizando as mais variadas atividades, os trabalhos seguiam apenas durante a safra de arroz, que durava cerca de três meses. Após este período, o alimento era armazenado para que, posteriormente, pudesse ser vendido com um valor maior. ?Era assim que conseguíamos nos manter. O negócio era realmente lucrativo?, destaca.
Diferente de outros engenhos da cidade, o da família Fachini, além de vender o produto para toda a comunidade gasparense, também vendia para o estado de São Paulo. ?Nossa produção era ótima. Conseguíamos beneficiar cerca de 200 sacos de arroz por dia?. Na época, eram vendidos apenas sacos de 60 quilos do grão.
Em 1964, com o golpe militar, os sócios da União dos Plantadores de Arroz de Gaspar sofreram um grande prejuízo. Os militares mandaram vender todos os sacos de arroz que eles tinham armazenado e que seriam vendidos após a safra. ?Não podia ter alimento estocado, então fomos obrigados a vender os milhares de sacos do alimento. Isto abalou o engenho, mas os sócios conseguiram se recuperar?, afirma o homem de 76 anos.
Porém, no fim da década de 1960, seu José revela que o engenho passou a perder a força. ?Meu pai precisou se ausentar, por um período, para cuidar de minha mãe que estava muito doente. Quando ele retornou, já havia muitas dívidas e o engenho tinha perdido muito dinheiro?, revela.
Seu Hermínio preferiu vender sua parte e sair de vez dos negócios. Depois disso, a indústria passou a ser administrada pelos outros sócios e após cerca de dois anos foi vendida para a família Krauss, que já possuía outro engenho. ?Chegaram a oferecer dinheiro para o meu pai continuar administrando o negócio, mas ele preferiu não se envolver mais?. A indignação por não poder continuar com o engenho de arroz ainda se faz presente nos olhos de seu José Fachini, que diz que ver o antigo negócio da família vir abaixo é algo muito triste. ?Não é fácil olhar para aquilo que ainda poderia ser seu e perceber que já não há o que se fazer para se recompor?.
Novidade para a família Pamplona
Um dos primeiros engenhos de arroz da cidade pertenceu à família Pamplona. A iniciativa partiu de Rodolfo Vieira Pamplona, que ao lado de outros 12 sócios fundou a Indústria Beneficiadora Gasparense S/A, em 1936. Segundo um dos filhos de Rodolfo, que também trabalhou no antigo engenho, Paulo Rodolfo Pamplona, 88 anos, a antiga indústria de arroz ficava no bairro Coloninha, próximo ao campo do Tupi. Cheio de orgulho, Paulo revela que seu pai foi o responsável por encontrar o terreno e começar a construir o galpão de madeira. ?Meu pai, que era agricultor, percebeu que as plantações de arroz estavam crescendo muito em Gaspar. Então, decidiu chamar outros agricultores e fundar a indústria beneficiadora?, relata. O engenho dos Pamplonas, assim como o da família Fachini, também só ficava ativo durante a safra de arroz. Por este motivo, destaca seu Paulo, o engenho não era um negócio muito lucrativo para a família.
Após alguns anos, na década de 1950, seu Rodolfo passou suas ações para um de seus filhos, Dorval Pamplona. Com a administração de Dorval, o engenho passou a crescer ainda mais. ?Como o engenho ficava parado após a safra, ele começou a comprar arroz seco do Rio Grande do Sul para que pudesse ser beneficiado também em outros meses?, explica. Porém, na década de 1970, Dorval se aposentou e vendeu as ações para um de seus filhos, que não conseguiu administrar o engenho de arroz. Desta maneira, a indústria chegou ao fim. ?Foi triste ver seu fim, já que este foi um dos primeiros engenhos de arroz do município. Acredito que ele poderia ter sobrevivido por mais algum tempo, mas não muito, já que havia muitos outros na cidade?.
União para a família Krauss
Um dos maiores engenhos de arroz do município, e que durou mais tempo, foi o da família Krauss, que ficava localizado na rua Barão do Rio Branco, onde hoje é a Padaria 7 de Setembro. Chamado de Indústria e Comércio de Arroz Krauss Ltda, o negócio foi fundado por dois irmãos, Arnoldo e Leopoldo Krauss, em abril de 1943. Durante todos os anos em que esteve ativo, apenas familiares administraram o engenho, tendo como sócios também os irmãos Adolfo, José Paulo, Irineu, Erico e Laércio. Segundo a esposa de seu Irineu, um dos sócios, Maria Ignês Garcia Krauss, 78 anos, o arroz era tratado durante a safra e após isto o engenho fechava suas portas e esperava a próxima colheita. ?O grão era comprado em Gaspar, mas as vendas se concentravam mesmo em São Paulo?, destaca. O negócio era lucrativo para toda a família e por isso conseguiu se manter até meados da década de 1980.
Ainda conforme dona Maria Ignês, o engenho de arroz possuía máquinas modernas, que não eram encontradas nas outras indústrias da cidade. Na década de 1970, a sociedade foi dividida entre os irmãos. Com isto, os familiares que deixaram este engenho compraram o da rua São José, que pertencia à família Fachini e sócios. A indústria dos Krauss chegou ao fim em 1983, quando Irineu se aposentou. ?Ele descobriu que estava doente e isto também fez com que se afastasse. Com medo de que os negócios não continuassem bem, meu marido decidiu fechá-lo?, explica Maria Ignês. Até hoje, parte da construção existe.
Edição 1483

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