
Ser diferente é normal. Por mais que alguns ainda insistam em enaltecer as diferenças das pessoas, há uma parcela da sociedade que as entende, aceita, e, acima de tudo, luta para que a igualdade seja realidade e não utopia. Maria Aparecida da Silva, 41 anos, é uma destas pessoas e hoje faz questão de que a inclusão social seja algo presente na rotina de todos que convivem com ela e sua filha.
Nicoly Paulo, 5 anos, uma das quatro filhas de Maria, foi diagnosticada com autismo logo aos nove meses de vida. Desde então, a mãe tem um pensamento prioritário: incluir a filha em todas as atividades que pessoas sem a doença fazem. ?Se temos algum compromisso ou evento para ir, ela sempre está presente. Por mais que ela não consiga ficar muito tempo em um mesmo lugar, fazemos questão de que ela saia, conheça lugares e pessoas?, ressalta.
Pensando nisso e na chance da conviver com crianças sem necessidades especiais, ela matriculou Nicoly, no início do ano passado, no Centro de Desenvolvimento Infantil Thereza Beduschi, no bairro Barracão. Com uma equipe preparada e disposta a ajudar a criança a superar e entender suas dificuldades, o CDI vem sendo parte importante em seu desenvolvimento. ?Ela tem o direito de estudar, de aprender, de crescer como qualquer outra criança. Neste período em que está estudando, percebo como ela vem melhorando e isso está sendo importante para o desenvolvimento dela?, afirma Maria.
A menina vai para a Apae no período matutino e fica no CDI durante a tarde. Ela está matriculada em uma turma com outros 19 alunos, entre 4 e 5 anos, que a respeitam e gostam de incluí-la nas atividades e brincadeiras. Nicoly tem o acompanhamento de uma professora especializada em educação especial, além da professora da turma. ?Ela recebe toda a atenção desta professora, já que precisa de mais cuidado e atenção. Sempre tentamos fazer com que ela participe e esteja junto com as crianças, pois em geral dá para incluí-la nas atividades?, destaca a professora da turma, Roseclair da Rosa.
Mudanças
Durante o período em que Nicoly está matriculada no CDI Thereza Beduschi, Maria tem notado várias mudanças positivas que aconteceram com ela. ?A questão da alimentação, principalmente. Antigamente, ela não comia nada com talheres e não encostava a boca em copos. Tudo tinha que ser dado na mamadeira. Hoje, ela já come de tudo e também bebe do copo, o que é um grande avanço?, ressalta.
Além disso, por praticar atividades e se movimentar mais, a criança teve significativa melhora para andar e já consegue se movimentar sem o auxílio da cadeira de rodas. ?Acredito que ela aprende muito com as pessoas ao seu redor. Ela via as crianças comendo com talheres, por exemplo, e também quis fazer isso?. Assim que completar a idade limite para ficar no CDI, a mãe de Nicoly pretende matriculá-la na Escola Luiz Franzói. ?Não quero que a minha filha fique trancada em casa só porque tem algumas limitações. Ela precisa evoluir e se desenvolver e somente inserindo-a na sociedade isso será possível?, diz.
Descoberta
Maria descobriu que Nicoly possuía autismo, uma doença até então desconhecida por ela, quando a criança tinha nove meses. O diagnóstico veio quatro meses depois de ela sofrer duas convulsões e duas paradas cardíacas. ?A partir daí, comecei a levá-la em vários médicos, pois ela passou a apresentar dificuldades, principalmente motoras?, explica a mãe. Já aos seis meses, Nicoly fazia fisioterapia. Nesta mesma idade, Maria Aparecida decidiu levar a filha para a Apae. Como não havia sinais aparentes de qualquer problema de saúde, foi recomendado que ela voltasse após seis meses e já com algum diagnóstico. ?Eu percebia que a minha filha era diferente e precisava muito dos serviços da Apae. Ela fazia fisioterapia, mas não apresentava melhoras. Por isso, voltei a Apae mesmo sem o diagnóstico?. Então, aos oito meses, a criança passou a frequentar a Associação.
Ao descobrir que a filha possuía autismo, a moradora do bairro Bateias afirma que se surpreendeu. ?Eu não conhecia a doença, não sabia nada sobre ninguém da família possuía?, lembra. Porém, a surpresa deu lugar à vontade de conhecer mais sobre o transtorno e fazer o possível para que Nicoly tivesse uma vida normal. Desde então, além da Apae, a criança passou a ir a vários médicos especialistas, que foram essenciais para que ela pudesse se desenvolver. Hoje, aos 5 anos, ela não fala e ainda possui certas dificuldades para caminhar, porém, a cada dia que passa, ganha mais estímulos e certeza de que no futuro as limitações poderão ser superadas.
Rede pública acompanha alunos com autismo
Na rede municipal de ensino de Gaspar, há outras 19 crianças autistas, além de Nicoly. Deste número, sete crianças, incluindo Nicoly, estudam nos Centros de Desenvolvimento Infantil, e outras 13 já frequentam as escolas. De acordo com a coordenadora da Educação Especial da Secretaria de Educação de Gaspar, Kátia Vargas Soares, o município possui 28 professores habilitados para acompanharem estes alunos portadores de necessidades especiais, conforme exige a legislação federal, e ajudá-los tanto na questão de aprendizagem quanto de socialização. O professor suporte acompanha a criança, conforme o grau de autismo diagnosticado. ?Temos alguns casos, por exemplo, em que o professor suporte não se faz necessário, já que o aluno consegue acompanhar bem as atividades desenvolvidas em sala de aula?, explica.
Estes profissionais não são exclusivos para cada criança portadora do transtorno. Conforme Kátia, não haverá dois professores em uma mesma sala de aula para auxiliar dois alunos com necessidades especiais. Este mesmo professor vai trabalhar e auxiliar as duas crianças. ?Hoje, na educação municipal, temos os mais variados casos de crianças autistas. Entre eles, dois alunos com grande conhecimento em informática e biologia, que ainda são muito novos?, ressalta. Para a coordenadora da Educação Especial, a inclusão de crianças autistas nas creches e escolas do município é de extrema importância para o desenvolvimento e aprendizagem. ?É necessário que essas crianças estejam inseridas na sociedade para que consigam aprender muitas coisas que nunca conseguiriam ficando apenas em casa?.
Parceria com a Apae
A Secretaria de Educação trabalha em conjunto com a Apae em questões que envolvem os alunos autistas. Ainda segundo Kátia, o trabalho realizado na entidade, que conta com uma equipe técnica especializada no assunto, faz com que os professores suporte tenham mais conhecimento sobre o caso do aluno ao trabalhar com ele. ?Estamos sempre em contato com a Apae, que nos informa em que estágio a criança está. A partir disso, vemos de que maneira será melhor trabalhar com ela e em quais pontos deve-se melhorar para que a criança autista possa ter mais autonomia?, conta.
Características
As características marcantes de pessoas autistas variam conforme o grau do transtorno. No caso de Nicoly, por exemplo, as características principais são: incômodo com aglomerados de pessoas e sons muito altos, dificuldades para olhar nos olhos das pessoas, dificuldades para aceitar mudança na rotina ou pessoas novas em casa, entre outras. A coordenadora da Educação Especial da Secretaria de Educação Municipal destaca outras características presentes nos demais alunos do município. ?Acredito que as mais comuns e percebidas são também o fato de não gostar de estar rodeado por muitas pessoas e de mudar de ambiente, a dificuldade para comer quando os alimentos estão misturados entre si, de interagir com várias pessoas e de permanecer com um mesmo objeto na mão por muito tempo?, explica Kátia.
Sobre a síndrome
O autismo é uma síndrome caracterizada por desvios de comunicação, atenção e imaginação; e, consequentemente, problemas comportamentais. Mais frequente em meninos do que em meninas, os primeiros indícios ocorrem, geralmente, antes dos três anos de idade, e persistem por toda a vida. Não são bem conhecidas as causas do autismo. Entretanto, sabe-se que o fator genético é um dos componentes. Psicoterapia, educação especial, terapia ocupacional, fonoaudiologia e fisioterapia são alguns recursos que podem ser recomendados com a finalidade de melhorar a qualidade de vida do indivíduo, fornecendo resultados significantes.
Fonte: Brasil Escola
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