“Quando eu chegava em casa do trabalho, ele falava que tinha um segredo pra me contar. Mas eu achava que era coisa de criança. Só depois descobri essa atrocidade”. O relato de Aparecida*, moradora de Gaspar, reflete a realidade de uma mãe que convive, há quase cinco anos, com uma sensação de impotência: dois de seus filhos foram abusados sexualmente dentro da sua própria casa.
O criminoso ainda não foi julgado. Amadeu Ferreira, hoje com 82 anos, não foi localizado para prestar contas com a justiça. Enquanto isso, a mãe luta para ver o culpado pagando pelo que fez.
Quinta-feira, dia 1º de outubro de 2015. Era para ser mais um dia normal de trabalho. Porém, um bilhete da escola pedia que Aparecida e o marido fossem até o educandário. Eles obedeceram e, na manhã seguinte, receberam a notícia que mudou o rumo de suas vidas: Joana*, na época com 12 anos; e Marcos*, com nove, haviam sido molestados pelo avô paterno. E o crime acontecia há bastante tempo.
A irmã mais velha das crianças foi quem contou na escola sobre os abusos. Ela havia descoberto recentemente. As palavras que Joana usou foram: “Vou te contar um segredo... espia pelo buraco”. Nesse momento, ela viu, através de uma abertura na parede, a irmã sem roupas sendo molestada pelo avô.
Do dia para a noite, a irmã mais velha se tornou parte importante desta história. Ela não foi abusada sexualmente, mas foi graças a ela que o crime foi descoberto.
Amadeu Ferreira, na época com 77 anos, foi quem quebrou a confiança do filho e da nora e extrapolou todos os limites possíveis. Ele aproveitava a chance de ficar sozinho com os dois netos e abusava sexualmente das crianças.
Aquele que se transformou no maior pesadelo da família era tido como uma pessoa de confiança. De avô presente, que cuidava das crianças enquanto os pais iam trabalhar, ele se transformou em um criminoso. “Eu tinha confiança nele. Não deixava as crianças com a minha família para deixar com meu sogro”, desabafa.
Após a descoberta, as crianças contaram para a mãe que os abusos aconteciam há bastante tempo. “Ele passava a mão, pedia para abaixarem as calças e até teve relação com a menina”, detalha a mãe.
O crime deixou sequelas que Aparecida e os filhos vão carregar pelo resto da vida. Joana segue com as atrocidades vivas na memória. Já Marcos convive com consequências ainda piores. “Ele é agressivo, revoltado. Vai ao psiquiatra, tem acompanhamento médico e toma remédio controlado. Tem muitas sequelas. Além disso, sofre de autismo, que se manifestou ainda mais após o crime”, conta.
O choque do momento em que recebeu a notícia se transformou em forças para lutar por justiça. Às 14h48 do dia seguinte, Aparecida estava na Delegacia de Polícia Civil de Gaspar registrando um Boletim de Ocorrência contra o sogro.
Passados cinco anos desde a descoberta do crime, o mandado de prisão contra Amadeu ainda não foi cumprido. “É impossível que não consigam achar ele. Quem está recebendo a aposentadoria? A justiça é muito lenta... preciso de ajuda para colocar um ponto final nessa história. Quero justiça e que ele pague por tudo de mal que fez”.
A prisão preventiva de Amadeu já foi decretada em 9 de março de 2017, mas ele ainda não foi localizado. O mandado de prisão está em um banco de dados nacional e pode ser cumprido em qualquer lugar do país. Se ele for parado em uma blitz ou renovar a carteira de motorista, por exemplo, os dados serão cruzados e ele será preso.
Como ele ainda não foi localizado, também não foi citado e não possui uma condenação. A polícia já esteve em seus possíveis endereços, mas não o encontrou.
Amadeu Ferreira nasceu em 13 de novembro de 1937 e tem hoje 82 anos. Ele segue foragido da justiça. Qualquer informação sobre seu paradeiro pode ser denunciada de forma anônima pelo Disque Denúncia 181.
* O nome das crianças e da mãe foi trocado para preservá-los
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