Gaspar acaba de perder uma franciscana com uma linda história de vida. Faleceu por volta das 15h30 de domingo, dia 30 de agosto, no hospital de Timbó, irmã Verônica Nagel, que atuava no Colégio Madre Francisca Lampel. Ela estava internada há mais de um mês e se tratava contra o coronavírus. Conforme informações da família, ela chegou a apresentar melhoras e já não precisava mais de sedativos. Porém, respirava com o auxílio de respirador e não acordava mais. Nos últimos dias de via, sofreu uma infecção, que resultou em sua morte.
Seu corpo será sepultado às 10h de segunda, no Cemitério de Gaspar.
Confira o relato feito pelo seu irmão, Henrique Nagel:
“Irmã Verônica Nagel nasceu em Gaspar, no dia 19 de fevereiro de 1939, filha de Floriano Nagel e de Lídia Spengler Nagel, moradores do Poço Grande, hoje pertencente ao bairro Lagoa.
Aos 17 anos, a convite da saudosa Irmã Miriam, ingressou na Congregação das Irmãs Franciscanas da Província da Imaculada Conceição, em Araraquara/SP. Após sua profissão dos votos definitivos (de obediência, castidade e pobreza), foi trabalhar no Lar das Meninas, em Ribeirão Preto/SP, onde atuou por oito anos. Na época, ela e mais quatro irmãs davam assistência a 80 crianças órfãs, de zero a quinze anos.
Uma passagem triste que a abalou ela e também a nossa família foi o cerco e a invasão repentina do Lar pelos militares, sob a alegação de que elas (as irmãs) estavam ensinando comunismo para as crianças. (Imaginem, o que crianças dessa idade vão entender sobre esse assunto?) A imprensa local e até do país instigou a opinião pública contra as irmãs. A irmã superiora foi presa, terrivelmente torturada na cadeia e foi exilada por 15 anos.
O povo da cidade ajudava muito o Lar com doações e, devido a essa ocorrência, ninguém mais ajudou, até para não se comprometer e com medo de também ser preso e torturado. Conforme o depoimento da Irmã Verônica, dentro da casa Lar das Meninas as irmãs não podiam se comunicar entre si e em cada cômodo da casa foi colocado um soldado armado com fuzil nas mãos, inclusive nos banheiros.
Com a falta das doações, os alimentos logo acabaram e uma das irmãs rompeu o silêncio imposto e, de joelhos, disse a um dos soldados: "Podem me matar, mas, por favor, não deixem faltar a comida para as crianças, principalmente o leite para os bebês."
O cerco e a invasão duraram 30 dias.
Na época, no ano de 1969, pela desumanidade dos militares, o bispo da Diocese de Ribeirão Preto excomungou da Igreja Católica, em praça pública, o comandante do exército de Ribeirão Preto e o Secretário de Segurança Pública do Estado de São Paulo, o Sr. Sérgio Fleury filho, ambos batizados e registrados na Igreja Católica.
Após o triste episódio, Irmã Verônica pediu transferência e foi morar em Itauçu, interior de Goiás, onde permaneceu um ano e meio. Depois, foi transferida para Vianópolis, pequena cidade a 100 km de Goiânia, onde permaneceu durante vinte e nove anos e meio. Estes foram os anos de ouro para ela e sua colega Irmã Lídia Gesser (foto ao lado), carismática e alegre, natural de Luís Alves.
As duas atuaram na educação como professoras, orientadoras e como catequistas. Além disso, cada uma atuou em áreas diferentes. A Irmã Verônica abraçou trabalhos assistenciais, dando suporte aos doentes, com remédios fito-terapicos, feitos por ela, pois não havia farmácia naquela cidade. Inclusive, aprendeu a fazer remédios com um velho índio que lá vivia e conhecia muito bem as ervas e plantas medicinais e para que serviam.
Em pouco tempo, Irmã Verônica tornou-se muito conhecida pelos medicamentos, que distribuía de graça, aliviando as dores de muitas pessoas doentes.
Além dessa assistência, auxiliou a muitas outras pessoas pobres, carentes de roupas e de alimentos. O hábito (a batina) que ela mais usava era o avental, que cansou de sujar ao extrair bicho-do-pé dos pés inchados e até já deformados de jovens e crianças. E a muitos livrou do incômodo da infestação de piolhos.
Ela e a Irmã Lídia fundaram uma escola de corte e costura, ensinando a arte da costura para senhoras e moças, além da arte do bordado e do crochê.
Na escola, teve alunos que trabalhavam em fazendas no interior do município. Saíam do trabalho sem tomar banho, indo à aula sujos, suados e fedorentos. Alguns vinham armados de faca e outros de pistola. Eram alunos voltados à violência. Chamava-os em particular e, com paciência e bondade, lhes dava conselhos para deixar as armas em casa e praticar o bem e viver em paz. Dava-lhes sabonete de presente para tomar um banho antes de virem a aula. O efeito positivo foi extraordinário. Com o passar do tempo, esses alunos começaram a frequentar as aulas sem armas e vinham limpos. Houve uma transformação da noite pro dia.
Outro fato interessante foi o apoio que ela e a Irmã Lídia dispensaram aos cantores sertanejos Leandro e Leonardo, então ainda desconhecidos e sem recursos financeiros para comprar um toca-fita, o que na época era top. As irmãs lhes emprestaram o toca-fita delas para que eles pudessem ensaiar os cantos num final de semana. Mas, o instrumento voltou após seis meses. Inicialmente, era um trio e um deles morava em Vianópolis e mais tarde saiu, restando os dois irmãos, que ficaram famosos.
Ainda hoje a Irmã Verônica e a irmã Lídia Gesser são reconhecidas e lembradas pelo povo vianopolino, que profundamente lamenta e até chora a partida da Irmã Verônica, como chorou a partida da Irmã Lídia em março do corrente ano, vítima de câncer.
De Vianópolis, Irmã Verônica foi transferida para Araraquara/SP, onde atuou em um colégio com 650 alunos. Por três anos, inclusive, atuou como diretora do colégio, sendo muito estimada pelos alunos e seus pais.
De Araraquara, veio para Gaspar, onde morou em torno de doze anos.
Irmã Verônica Nagel (foto) faleceu no dia 30 de agosto de 2020, às 15h30, no hospital de Timbó, vítima de coronavírus.
A seu pedido, seu corpo será sepultado ao lado da Irmã Miriam, sua grande inspiradora.
Irmã Maria Verônica foi uma fiel serva de Deus e cumpriu sua missão com alegria, com esforço e muita dedicação.
Por tudo e por todos, Deus seja louvado”.
“Agradecemos as orações e carinho de todos que rezaram por ela nesse tempo em que ela esteve internada, mas como sua situação de saúde estava cada vez mais sofrida, acreditamos que descansou em Deus, depois de uma vida feliz, doada e realizada. Que Deus a acolha e conceda a ela o céu e a paz!” – Colégio Madre Francisca Lampel
“Unamo-nos todos em oração, sentimentos e solidariedade à família Nagel e à Congregação da Irmãs Franciscanas da Imaculada Conceição, agradecendo por seu serviço à nossa Comunidade pelo seu testemunho de vida, oração, fé e trabalhos voluntários” – frei Paulo Moura, pároco da Igreja Matriz de Gaspar
“Uno-me às pessoas que se solidarizam e desejam as condolências pelo falecimento da Irmã Verônica. Rezemos pelo descanso eterno desta Irmã que passou pelo mundo fazendo o bem” – frei José Bertoldi
“Covid-19! Que doença triste... Não queremos perder ninguém querido, não importa a idade. Fique com Deus, minha tia amada. Ficaremos sempre com os seus ensinamentos!” – Rosemeri Corsani
“Nossos sentimentos à família Nagel e àsIrmãs Franciscana do Colégio de Gaspar” - Marlete Debortoli dos Santos
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